1. Síntese conectiva de produção
Uso legítimo (parcial e não-específico): objeto parcial com objeto parcial, onde não falta nada.
“A síntese produtiva, a produção de produção, tem uma forma conectiva ‘e’, ‘e depois’. É que há sempre uma máquina produtora de um fluxo e uma outra que se lhe une, realizando um corte, uma extração de fluxos (o seio/a boca).(...) O desejo faz constantemente a ligação de fluxos contínuos e de objetos parciais, sempre cortados por outros objetos parciais que, por sua vez, produzem outros fluxos, que são ainda re-cortados por outros objetos parciais. Qualquer ‘objeto’ supõe a continuidade de um fluxo, e qualquer fluxo a fragmentação de um objeto” (p. 11).
Uso ilegítimo (global e específico): “(...) o desejo recebe um sujeito fixo, isto é, um eu especializado num ou noutro sexo, e objetos completos determinados como pessoas globais” (pág. 73). “(...) a conexão dos objetos parciais é substituída por um regime de conjugação de pessoas. No conjunto, as conexões de máquinas-órgãos próprias à produção desejante são substituídas por uma conjugação de pessoas que obedece às regras da reprodução familiar. Os objetos parciais parecem agora extraídos de pessoas e não dos fluxos não-pessoais que passam por todos eles. (...) Os objetos parciais, em vez de sofrerem uma apropriação conectiva, transformam-se nas posses de uma pessoa e, se preciso for, na propriedade de uma outra” (pág. 75).
2. Síntese disjuntiva de registro
Uso legítimo (inclusivo e ilimitativo): “Uma disjunção que continue a ser disjunção mas que, no entanto, afirme os termos disjuntos, e que os afirme através de toda a sua distância. (...) ‘Quer quer’ no lugar de ‘ou então’” (p. 79). “Não identifica os dois contrários no mesmo, mas afirma a distância deles como aquilo que os relaciona um com outro enquanto diferentes” (p. 80). “Não obedecem a plano, trabalham a todos os níveis e em todas as conexões; cada um fala a sua própria língua, e estabelece sínteses com outros, que são tanto mais diretas em transversal quanto mais indiretas são da dimensão dos elementos. As disjunções próprias destas cadeias ainda não implicam nenhuma exclusão, surgindo só as exclusões devido a um jogo de inibidores e de repressores que determinam o suporte e fixam o sujeito específico e pessoal. (...) Cada cadeia apanha os fragmentos de outras cadeias de que extrai uma mais-valia, tal como o código da orquídea ‘extrai’ a figura à vespa: fenômeno de mais-valia de código. (...) A única vocação do signo é produzir desejo, e em todos os sentidos” (p. 42).
Uso ilegítimo (exclusivo e limitativo): trata-se do ideal de uma certa utilização das sínteses disjuntivas.
“É o domínio do Ou então na função diferenciante da proibição do incesto: a mamã começa aqui, o papá ali, e acolá tu. Deixa-te estar no teu lugar. (...) E ‘ser pai ou filho’ é também acompanhado por duas outras diferenciações sobre os lados do triângulo, ‘ser homem ou mulher’, ‘estar morto ou vivo’ (p. 78 e 79). “Mas devemos ainda fazer notar que foi o próprio Édipo que criou tanto as diferenciações que ordena, como o indiferenciado com que nos ameaça. (...) Força o desejo a tomar como objeto as pessoas parentais diferenciadas, e em nome das mesmas exigências interdita o eu correlativo de satisfazer o seu desejo nessas pessoas, ameaçando-o com o indiferenciado. Mas foi precisamente ele que criou esse indiferenciado como reverso das diferenciações por ele criadas. (p. 82)
3. Síntese conjuntiva de consumo
Uso legítimo (nômade e plurívoco): “Trata-se de relações de intensidade através das quais o sujeito passa para o corpo sem órgãos, e faz transformações, altos e baixos, migrações e deslocamentos (...) Dir-se-ia assim que nessas transformações, passagens e migrações intensas, nessa grande deriva que percorre o tempo nos dois sentidos, tudo se mistura: – países, raças, famílias, nomes familiares, nomes divinos, nomes históricos, geográficos e até pequenos acontecimentos.(Sinto que) me torno Deus, me torno mulher, que fui Joana d’Arc e que sou Heliogabalo, e o Grande Mongol, um Chinês, um pele-vermelha, um Templário, que fui o meu pai e que fui o meu filho. (...) Mas se tudo se mistura assim, e em intensidade, não confusão de espaços e formas, visto que estes são desfeitos em proveito de uma ordem, a ordem intensa, intensiva” (p. 88 e 89). “No centro está a máquina do desejo, a máquina celibatária do eterno retorno” (p. 26). “O próprio sujeito não está no centro, ocupado pela máquina, mas nos contornos, sem identidade fixa, sempre descentrado, concluído dos estados por que passa” (p. 25). “Apenas uma série de singularidades na rede disjuntiva, ou de estados intensivos no tecido conjuntivo, e um sujeito transposicional por todo o círculo, passando por todos os estados” (p. 93). Não a identificação com pessoas, mas a identificação dos nomes da história com zonas de intensidade sobre o corpo sem órgãos; e o sujeito grita sempre ‘Afinal sou eu!’” (p. 26).
Uso ilegítimo (segregativo e bi-unívoco): Sou brasileiro, sou do exército, sou do BOPE. Nós americanos, nós brancos, nós europeus, nós trabalhadores, nós palmeirenses, etc. Os inimigos são os argentinos, os judeus, os traficantes, os negros, os iraquianos, os terroristas, etc.
“Portanto, no inconsciente, há uma utilização segregativa das sínteses conjuntivas que não coincide com as divisões de classe, embora seja uma arma incomparável nas mãos de uma classe dominante: é ela que provoca o sentimento de ‘estar bem em casa’, de fazer parte de uma raça superior ameaçada pelos inimigos do exterior. (...) O Édipo é que depende de um tal sentimento nacionalista, religioso, racista, e não o inverso: não é o pai que se projeta no chefe,mas é o chefe que se aplica ao pai (...) para nos dizer ‘não podes superar o teu pai’”(p.108).
As páginas citadas referem-se à edição portuguesa da editora Assírio & Alvim do livro "O Anti-Édipo", de Deleuze & Guattari.