segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Notas sobre a experiência e o saber de experiência, por Jorge Larrosa




[...] a experiência é cada vez mais rara por excesso de opinião. O sujeito moderno é um sujeito informado que, além disso, opina. É alguém que tem uma opinião supostamente pessoal e supostamente própria e, às vezes, supostamente crítica sobre tudo o que se passa, sobre tudo aquilo de que tem informação. Para nós, a opinião, como a informação, converteu-se em um imperativo. Em nossa arrogância, passamos a vida opinando sobre qualquer coisa sobre que nos sentimos informados. E se alguém não tem opinião, se não tem uma posição própria sobre o que se passa, se não tem um julgamento preparado sobre qualquer coisa que se lhe apresente, sente-se em falso, como se lhe faltasse algo essencial. E pensa que tem de ter uma opinião. Depois da informação, vem a opinião. No entanto, a obsessão pela opinião também anula nossas possibilidades de experiência, também faz com que nada nos aconteça.

[...]

Nessa lógica de destruição generalizada da experiência, estou cada vez mais convencido de que os aparatos educacionais também funcionam cada vez mais no sentido de tornar impossível que alguma coisa nos aconteça. Não somente, como já disse, pelo funcionamento perverso e generalizado do par informação/opinão, mas também pela velocidade. Cada vez estamos mais tempo na escola (e a universidade e os cursos de formação do professorado são parte da escola), mas cada vez temos menos tempo. Esse sujeito da formação permanente e acelerada, da constante atualização, da reciclagem sem fim, é um sujeito que usa o tempo como um valor ou como uma mercadoria, um sujeito que não pode perder tempo, que tem sempre de aproveitar o tempo, que não pode protelar qualquer coisa, que tem de seguir o passo veloz do que se passa, que não pode ficar para trás, por isso mesmo, por essa obsessão por seguir o curso acelerado do tempo, este sujeito já não tem tempo. E na escola o currículo se organiza em pacotes cada vez mais numerosos e cada vez mais curtos. Com isso, também em educação estamos sempre acelerados e nada nos acontece.

[...]

Em qualquer caso, seja como território de passagem, seja como lugar de chegada ou como espaço do acontecer, o sujeito da experiência se define não por sua atividade, mas por sua passividade, por sua receptividade, por sua disponibilidade, por sua abertura. Trata-se, porém, de uma passividade anterior à oposição entre ativo e passivo, de uma passividade feita de paixão, de padecimento, de paciência, de atenção, como uma receptividade primeira, como uma disponibilidade fundamental, como uma abertura essencial.



Para ler o texto na íntegra, clique aqui.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Crepúsculo

Tarde... Tão linda é a tarde!
E tão lindo é o céu...
Esse sol que arde, com essa cor de mel.
Essa noite que desponta em rimas...
Mas essa tarde ainda lhe põe decotes de cores quentes
Em teu vestido de breu...
Vamos nos encontrar amor, pois já é tarde,
Ainda é dia.

Mas depois da tarde, do que foi tarde, resta a rotunda...
Depois do espetáculo, um mergulho nas cortinas que levam ao camarim.
Esmaecer num lenço as cores da face, para tornar a ser...
Somente na noite é que é possível ver estrelas, porque o sol não é uma estrela.
O Sol é mais que uma estrela. È a estrela.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Culpa, ressentimento e a inversão dos valores em Nietzsche, por Amauri Ferreira


Qual é a origem do pecado, da culpa, e do ressentimento? São sentimentos que se tornaram tão comuns que podem nos levar a acreditar que eles são inerentes ao homem. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), em sua genealogia, nos diz que esses sentimentos são inseparáveis da moral judaico-cristã. É por essa moral que o homem experimenta continuamente uma repressão de seus impulsos ativos. Mas como esses impulsos não somem, é inevitável que haja um conflito entre uma moral que reprime e a nossa vontade de potência que quer expandir-se. Assim, segundo o filósofo, o homem torna-se reativo quando vive limitado apenas à conservação da sua existência, o que faz multiplicar o seu sofrimento e a necessidade de viver cada vez mais submetido às promessas de recompensa oferecidas pelo poder sacerdotal. Dessa forma, o homem passa a ignorar um aspecto primordial da existência que é a criação, ou seja, é somente por meio da efetuação da sua natureza que o homem torna-se capaz de criar novos valores, de afastar para longe de si a culpa e o ressentimento. Nesse sentido, Nietzsche nos diz que a felicidade corresponde ao crescimento da nossa potência, a uma constante diferenciação de si mesmo, o que torna desnecessária toda crença em um ideal ascético, isto é, em um modelo de perfeição que esmaga as diferenças. [cont.]

Leia o artigo completo no Portal Ciência & Vida.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Corpo orgânico e corpo histérico, aula de Claudio Ulpiano

Curso de Verão

Aula de 4/01/1995

Quando eu falo pensamento, corpo e tempo - e faço uma associação do pensamento com o corpo - aparece uma idéia aparentemente confusa, porque a tradição da filosofia marcou que o corpo seria o grande obstáculo do pensamento. Inclusive, quando a filosofia emerge na cidade grega - com Platão - essa relação entre o corpo e o pensamento é inteiramente impossível: o corpo seria exatamente aquilo que barraria a passagem do pensamento. Ainda assim, é essa associação “pensamento e corpo” um dos pontos principais desse curso que eu vou dar pra vocês.

E a terceira questão - o tempo - que irá surgindo ao longo da minha exposição.

Neste momento, eu começo a entrar na aula - e tudo o que eu vou dizer terá uma importância enorme para a compreensão de vocês. Nesta primeira aula, eu vou fazer a exposição - e uma pequena experimentação de como vocês estão ouvindo: de como vocês estão recebendo essa maneira de pensar. Por exemplo:

Um músico do nosso tempo - chamado Olivier Messiaen - vai fazer uma distinção entre quatro tipos de canto de pássaros. Diz ele, que na primavera, os pássaros, praticamente todos eles, fazem o canto do amor - que é um canto de sedução, geralmente feito pelos machos. Esse canto de amor - evidentemente - tem uma função específica: serve à espécie - porque o amor permite a reprodução; e serve aos prazeres do indivíduo. Seria esse canto - que eu chamei de canto de amor - que ocorre em todas as primaveras.

O outro tipo de canto, diz ele, que é entendido por todo e qualquer pássaro - é o grito de alarme. Os pássaros - através do gorjeio - fazem o canto de amor e o grito do alarme: dois cantos que estão a serviço do que eu passarei a chamar, nesta aula, de CORPO ORGÂNICO. Ambos os cantos estão a serviço do organismo - das funções dos órgãos; no sentido de que um canto - o canto de amor - tem como único objetivo prestar um enorme serviço à espécie; ou seja - à evolução da espécie; e assim por diante.

Mas, de outro lado, Messiaen vai falar num terceiro canto (por enquanto, eu vou deixar o [quarto] entre aspas). Esse terceiro canto, de que Messiaen nos fala, é o canto que alguns pássaros fazem para o pôr do sol - ou [melhor]: para o crepúsculo e para a aurora. Esse canto não tem nenhum objetivo orgânico e não presta nenhum serviço à espécie ou ao indivíduo: é o canto gratuito - que o pássaro produz, não importa os perigos que ele corra. Segundo Olivier Messiaen, [o canto gratuito] é de uma extraordinária beleza! E quanto mais forte for o crepúsculo; quanto mais se espalhar a cor violeta; e quanto mais bonita for a aurora - mais esplendorosos os temas e motivos que o pássaro canta.

A partir dessa colocação, é evidente que há uma diferença do canto da primavera e do grito de alarme para o canto gratuito - porque esse canto é gratuito [exatamente] porque não presta nenhum serviço ao organismo ou à espécie.

Se, de algum modo, eu me fiz entender; se alguma coisa do que eu falei atravessou... (caso contrário, mais adiante eu farei com que vocês entendam!) - eu marquei claramente a existência - pelo menos nos pássaros - de dois tipos de corpo: um corpo orgânico, que está sempre a serviço da espécie e do indivíduo; e um corpo que, por enquanto, eu só posso chamar de um corpo estético. No caso dos pássaros, é um corpo que fica de tal forma tocado diante das luzes, da claridade e das cores que o crepúsculo e a aurora produzem, que começa a [emitir] - Atenção! - ondas rítmicas: ele gera ondas rítmicas, que se encontram com as forças da natureza. E quando o ritmo se encontra com as forças da natureza - isso se chama SENSAÇÃO.

- O que é a sensação?

A sensação é a potência de um corpo vivo, que produz uma onda de intensidade - que no caso dos pássaros são os ritmos; e no caso das forças caóticas da natureza, as misturas das cores, dos calores e das luzes... E quando essas duas linhas se encontram, emerge o que Olivier Messiaen vai chamar de personagem rítmico. O personagem rítmico não é um sujeito, não é um pássaro. O personagem rítmico é uma onda, que se serve do corpo do pássaro.

Então, através do encontro das ondas estéticas e da composição do personagem rítmico - que é exatamente o pássaro ao fazer esse canto; com as forças do sol, as forças da natureza - que eu passarei a chamar de paisagem melódica - alguma coisa em termos de corpo, em termos de pensamento e em termos de tempo se produz.

Essa mesma exposição (que provavelmente, por enquanto, nem todos puderam entender...) poderemos encontrar no cinema de um diretor de Nova York - que é o John Cassavetes. Todo o cinema do John Cassavetes é um cinema do CORPO - mas de modo nenhum do corpo orgânico. Usando [o que eu falei sobre] os pássaros... - o cinema do Cassavetes é um cinema do personagem rítmico e da paisagem melódica. Repetindo: Cassavetes introduz no cinema o corpo - mas de modo nenhum o corpo orgânico. [cont.]

________________________________________________________________

Leia [na íntegra] este e outros textos de Claudio Ulpiano acessando o site Centro de Estudos Claudio Ulpiano.

sábado, 6 de junho de 2009

Respiro, por Amauri Ferreira

Nos momentos de respiro estamos acompanhados da nossa própria experiência porque ousamos nos entregar, mesmo que temporariamente, ao aspecto inútil da existência. Somente assim podemos perceber que, de fato, não paramos de mudar um só instante, que nos diferenciamos ininterruptamente – nesse processo sentimos emergir uma grande alegria por participarmos de uma realidade que se alimenta de si mesma. Passamos a amar e a desejar a potencialização da nossa capacidade de sermos profundamente afetados pelo tempo. Como aprendemos a amar as experiências dessa natureza, somos pressionados a comunicar aos outros essa grande emoção da mente – e é inevitável que os pensamentos nunca antes imaginados tornem-se presentes para nós. Essa grande sensação nos coage a vivermos cada vez mais assim: o inútil, o maravilhosamente inútil, expressa a interrupção temporária da agitação, do barulho que provém das quinquilharias eletrônicas, da insana correria de pessoas que precisam atender telefones, ir para o trabalho, consumir distrações, enfim, tudo o que caracteriza o cotidiano do homem utilitário. Com uma virtude encarnada, quem é grande esforça-se, sempre naquilo que pode, para varrer para longe de si a maior parte das obrigações sociais estabelecidas, e trava um combate contínuo contra o automatismo crescente das pessoas, que reproduz uma humanidade embotada, escrava do seu fanatismo utilitário, da sua repugnância contra tudo que é estranho, do seu ódio contra o tempo. Mas a criação e toda grande sensação apenas podem ser filhas do inútil!... Somente assim podemos redimir o útil... Nada nos falta quando entendemos que, para que haja a geração do novo, basta nos aprofundarmos no nosso próprio tempo – um tempo que maquina silenciosamente cada modificação em nós.  É através dele que encontramos o nosso ritmo para tudo que fazemos.


Leia outros aforismos em amauriferreira.blogspot.com

sexta-feira, 5 de junho de 2009

O QUE É SER CONTEMPORÂNEO? A visão de Giorgio Agamben

O que é ser contemporâneo? Essa foi a pergunta que guiou o curso de filosofia que Giorgio Agamben apresentou no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza. É também o título deste ensaio, até hoje inédito em espanhol [e português], publicado pelo jornal Clarín em 21-03-09. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

_______________________________________________________

1.

A pergunta que eu gostaria de inscrever no início deste seminário é: "De quem e de que somos contemporâneos? E, sobretudo, o que significa ser contemporâneos?". (...) De Nietzsche vem-nos uma indicação inicial, provisória, para orientar nossa busca por uma resposta. (...) Em 1874, Friedrich Nietzsche, um jovem filólogo que havia trabalhado até então em textos gregos e, dois anos antes, havia alcançado uma celebridade imprevista com "A origem da tragédia", publica as "Considerações Intempestivas", com as quais quer acertar contas com o seu tempo, tomar posição com relação ao presente. "Intempestiva é essa consideração", lê-se no começo da segunda Consideração, "porque tenta entender como um mal, um inconveniente e um defeito algo do qual a época justamente se sente orgulhosa, ou seja, sua cultura histórica, porque penso que todos somos devorados pela febre da história e deveríamos, pelo menos, nos dar conta disso".

Nietzsche situa, portanto, sua pretensão de "atualidade", sua "contemporaneidade" com relação ao presente, em uma desconexão e em uma defasagem. Pertence realmente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo aquele que não coincide perfeitamente com aquele, nem se adequa a suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual. Mas, justamente por isso, a partir desse afastamento e desse anacronismo, é mais capaz do que os outros de perceber e de apreender o seu tempo.

Essa não-coincidência não significa, naturalmente, que seja contemporâneo quem vive em outra era, um nostálgico que se sente mais cômodo na Atenas de Péricles, ou na Paris de Robespierre e do Marquês de Sade do que na cidade e no tempo em que lhe coube viver. Um homem inteligente pode odiar o seu tempo, mas sabe que irrevogavelmente lhe pertence, sabe que não pode fugir de seu tempo.

A contemporaneidade é, pois, uma relação singular com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, toma distância dele. Mais exatamente, é "essa relação com o tempo que adere a este, por meio de uma defasagem e de um anacronismo". Os que coincidem de um modo excessivamente absoluto com a época, que concordam perfeitamente com ela, não são contemporâneos, porque, justamente por essa razão, não conseguem vê-la, não podem manter seu olhar fixo nela.

[cont.]

___________________________________________________________

Leia o texto na íntegra em IHU - Instituto Humanitas Unisinos

domingo, 31 de maio de 2009

VER..., por Guilherme Corrêa

Comemoramos (!!??) recentemente, neste mês de maio que se finda, o Dia Nacional Contra o Abuso e a Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Os altos índices de abuso sexual de crianças anunciados cotidianamente nos sinalizam uma situação que demanda medidas transformadoras. Entretanto, as saídas que os agentes costumam apontar [como a castração química de pedófilos...] têm um caráter higienista e um colorido eugenista que anuncia, muito mais que ações em defesa da democracia e dos direitos do homem, microfascismos a combater. O texto abaixo aponta outras vias [ou alvos] de combate, bem mais legítimas e realizáveis.

VER…
A meninas superpoderosas são boas. Amigas do prefeito e resultado de uma experiência científica, elas resolvem a socos todos os problemas causados pelos maus. Bons têm cara de bons, maus, de maus. Para os maus, espancamento e prisão: é assim que elas gostam. Depois de passarem o dia distribuindo porrada e limpando as ruas, são postas na cama pelo zeloso cientista que as criou e dormem o sono dos justos. Mas, as superpoderosas são para meninas, meninos pedem mais emoção… Mortes espetaculares são a pedida. Da disseminação de uma espécie de ludicidade violenta marcada pelo vídeo game mortal kombat (ícone maior) chegamos hoje ao GTA e seu convite a matar inimigos, atropelar quem passar pela frente, empurrar pessoas para a linha do metrô que passa… Fazer tudo isso sem ser pego pela polícia garante excelente pontuação. Polícia ou bandido são as opções oferecidas no mundo em que maniqueísmo com 100% de pureza é edulcorado por competições, acúmulo de pontos e cores alegres no qual despontam a disponibilidade para eliminar o mal.
Quase toda criança brasileira, hoje, seja rica ou pobre, é filha de gente que – com Ratinho, Hebe Camargo, Ana Maria Braga – acha que todas as pessoas nominadas bandido devam ser presas e apodrecer na cadeia. Essas crianças aprenderam, com Xuxa, Luciano Huck e Gugu a amar e emocionar-se com treinamentos militares em que pessoas comuns, modelos de beleza e seus apresentadores prediletos querem vencer os desafios (ordenados aos berros) por comandantes másculos e fortões. Ui!
No Brasil as crianças nos surpreenderam amando Tropa de Elite. Pudera! São mais de trinta anos – desde Nacional Kid, passando por Gil Gomes no programa Aqui Agora – de investimento nessa formação político-militar-policial baseada em heróis que salvarão o mundo do mal. [cont.]

___________________________________________________
* O autor é membro do coletivo Trezentos

sexta-feira, 29 de maio de 2009

POLÍTICAS ESQUIZOTRANS* - Fabiane Borges e Hilan Bensusan

Por uma pornografia livre

Contra a mercantilização dos desejos e o patriarcado falocêntrico, queremos fazer uma pornografia com o odor de Walt Whitman. Oceano-sexual, via-láctea sexual, brisa-sexual, esperando-por-você-sexual. Uma pornografia livre como uma grafia do corpo livre, ou uma geografia da alma livre

Fabiane Borges, Hilan Bensusan

(13/05/2008)

O lixo. Dejetos, excessos, defeitos, exceções com os quais não sabemos o que fazer. Enchemos as ruas, as valas, os depósitos de lixo. O lixo é o que sobra – o que não tem cabimento nas nossas formas de vida. Sustentabilidade pode ser medida assim: quanto fica de fora! Uma maneira de distribuir que embala com plástico, uma maneira de produzir que dá a luz à mais do que consegue escoar. Uma maneira de consumir que se baseia em exibir sempre o novo inelutavelmente deixa sobras de fora. O lixo é o que não conseguimos assimilar nas nossas maneiras de produzir, distribuir e consumir. O lixo é o que sobra de um processo – como uma máquina com vazamento, como uma economia que funciona produzindo excessos, excedentes, externalidades. [cont.]


Leia o texto integral em Le Monde diplomatique.

___________________________________________________________________

* POLÍTICAS ESQUIZOTRANS é uma coluna mantida por Fabiane Borges e Hilan Bensusan em Le Monde diplomatique, edição Brasil.

domingo, 24 de maio de 2009

POLÍTICAS ESQUIZOTRANS* - Fabiane Borges e Hilan Bensusan

Queer: política sexual do noise


Nem se trata de encontrar espaço para o ruído, mas de roer lentamente o sexo com partitura, o desejo como coreografia e os corpos com tonalidade fixa. E a parte mais excitante: tudo soa. Tudo é som. Cada ínfima parte do mundo tem seu próprio ruído. Isso é noise, isso é sexo. Democracia

(24/07/2008)

Noise não é música. Queer não é sexo. Talvez estejamos à beira da era da pós-música e estamos querendo ver ao longe a era do pós-sexo. Mas há ziguezagues frenéticos e pode ser que até a música retorne, até o sexo retorne. Queremos isso? O noise é um deslocamento para fora das margens da história da música canônica; uma requebrada, uma saída do eixo, mas que se repete cada vez mais: o noise tem um pedigree em Cage, Boulez, Zappa, um outro em Captain Beefheart, Sonic Youth, Wunderlitzer e tem outros. O deslocamento se faz expondo matéria sonora que ficou deixada de lado pelo cânone da música; aquilo que soa amorfo ou abjeto para além do que é apenas desafinado. Os detritos da música – que têm o nome do que perturba a transmissão. Adicionar noise é uma intromissão no caminho esperado da informação: fazer ruído. Deixar as coisas roídas. Boyan Machev [1] descreve o noise como uma desorganização da vida: um agente provocador que logo se comporta como um agente infeccioso. Machev opina que o noise é a arte da desorganização e por isso mesmo é a arte da alteração, da expressão da potência e da transformabilidade. Do que parecia amorfo emerge alguma nova morfologia e, se continuamos ruindo, uma outra. Trata-se de roer a teia que vai da matéria ao instrumento e do instrumento o som. A matéria ela mesma faz som – matéria-sem-instrumentos é equipamento esquizo. Noise contamina a música e, eventualmente, vai se tornando música. A música vai ficando ruída, infestada de desorganização. [cont.]


Leia o texto integral em Cassandras ou em Le Monde diplomatique

____________________________________________________________________

* POLÍTICAS ESQUIZOTRANS é uma coluna mantida por Fabiane Borges e Hilan Bensusan em Le Monde diplomatique, edição Brasil.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

CINEMAUSINA – EUPHORIA, de Ivan Vyrypayev

Hoje, às 19 h, no Viela Sebo-Café, exibição do filme Euphoria (Rússia, 2006, 71 min, cor), de Ivan Vyrypayev, com comentários de Valter A. Rodrigues.
Vencedor do Leão de Prata de Melhor Filme Europeu no Festival de Veneza de 2006.
Viela Sebo-Café: Rua Siqueira Campos, 350 - Recreio - 45020-800 -Vitória da Conquista - BA
Tel. [77]3421-3266.


sábado, 4 de abril de 2009

Palestra de Antonio Moura - 18.04.2009, 16h, Casa da Rede de Atenção



A palestra foi gravada em vídeo e áudio e será disponibilizada brevemente nesta página.

Projeto Existências-Resistências / Exposição de Rogério Ferrari na Letras&Prosa


Palestina... Turquia... Chiapas... Um homem, uma câmera, um corpo vibrátil... Rogério Ferrari [Ipiaú, BA], fotógrafo, perambula pelo mundo com sua câmera, instala-se na pulsação dos territórios, re-a[fe]tiva seu devir etnógrafo e constrói sensíveis cartografias de povos que dizem NÃO!

CURDOS – UMA NAÇÃO ESQUECIDA Quando chegou a Turquia, no inverno de 2002, mais precisamente em novembro, com o objetivo de conhecer a realidade do povo curdo, o fotógrafo Rogério Ferrari vinha de uma experiência que o havia marcado profundamente: estivera na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, Palestina, onde registrou o cotidiano e a resistência dos palestinos frente a ocupação israelense, vivência que resultou no livro Palestina, a eloqüência do sangue, lançado em 2004 no Brasil e, recentemente, em novo livro, Palestine, lançado na França. Diferentemente do conflito no Oriente Médio, que acontece sob os holofotes da midia, a questão curda mostrou-se muito mais complexa. Isso porque a repressão sofrida por aquele povo ao longo das últimas dez décadas foi simplesmente deixada de lado pela comunidade internacional, que fechou os olhos diante das atrocidades praticadas pela Turquia contra os curdos: direitos civis violados, inclusive o de falar a própria língua, exterminio, cidades destruídas, prisões, torturas ilustram o grau de repressão cometida contra os curdos. No entanto, ao contrário do registro do conflito no Oriente Médio, onde o seu raio de ação se deu, inclusive, entre fogo-cruzado, em Diyarbakir, capital curda na Turquia, Ferrari viu-se limitado pelo controle da polícia turca, o que o obrigou a fotografar de forma mais “intimista” a realidade local. No final, o trabalho ganhou um caráter diferenciado, pois a aproximação e o conhecimento das tragédias e dos sofrimentos de muitas famílias resultaram em imagens reveladoras do estado de espírito de um povo. O resultado encontra-se em CURDOS – UMA NAÇÃO ESQUECIDA, livro através do qual a expressão de um povo é retratada em preto e branco, dando ao observador a percepção do sofrimento e humilhação de milhões de pessoas, mas, também, a visão da integridade de um povo que não abdica do direito de existir com dignidade. O livro, impresso em setembro de 2007, tem 112 páginas, é uma produção independente composta por 45 fotografias, depoimentos, textos e mapa. Foi traduzido para o francês, italiano e curdo. O lançamento, na Aliança Francesa, foi acompanhado de uma exposição fotográfica, composta por 15 fotos em preto e branco. Em março o livro foi lançado em Paris, e, em maio, chegou ao Curdistão, onde foi entregue às pessoas que dele participaram e que se deixaram fotografar. Neste final de semana o lançamento se dá em Vitória da Conquisa, na Livraria Letras&Prosa.
Sobre o Fotógrafo: Rogério Ferrari desenvolve de forma autônoma o Projeto Existências-Resistências, uma documentação fotográfica sobre a realidade e a luta de povos e movimentos que lutam por terra e pelo direito básico de existir com dignidade: palestinos, curdos, zapatistas, sem-terra no Brasil, e, mais recentemente, o povo do Sahara Ocidental, refugiado no deserto do Sahara, na Argélia, e nos territórios ocupados pelo Marrocos. Procura, através de Existências-Resistências, afirmar e reposicionar a noção de resistência de maneira que, mais do que opor-se, resistir signifique existir, afirmar a vida sobre a morte. Assim, mostrou os palestinos que, vivendo há mais de cinquenta anos sob ocupação, mesmo com a vigência cotidiana da dor, sustentam a ternura, o desejo e a luta por liberdade; os sem terra no Brasil, que, ao lutar pela superação da fome e da miséria, expõem um lado do país que não cessa de fragmentar nossa busca por uma identidade digna; rompeu a absoluta desinformação sobre os curdos que historicamente têm sido banidos do direito de existir enquanto uma nação com pátria; viu nos Zapatistas, no México, o quanto um povo subestimado pode determinar novas práticas políticas, sustentando-as numa referência cultural própria; e, no povo do Sahara Ocidental, habitando em campos de refugiados numa das regiões mais inóspitas do mundo, e sob ostensiva e cruel repressão do governo marroquino, a vigência do valor da simplicidade e de uma sociedade pautada no valor do ser e não do ter.
O fotógrafo, nascido em Ipiaú, Bahia, lançou em outubro passado, na França, o livro Palestine, primeiro título da coleção intitulada Existance-Resistence, que incluirá os demais registros que compõem o Projeto Existências-Resistências. Formado em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia, trabalhou em revistas como Carta Capital, Veja, Áccion e Reuters. Seu trabalho é independente e, sem muito dinheiro para bancar suas viagens, costuma hospedar-se na casa de pessoas dos lugares que visita, tendo assim melhores condições para vivenciar e retratar a árdua e difícil vida dos povos que ainda lutam por um pedaço de terra ou pelo reconhecimento de sua nação. Distanciado de uma postura panfletária ou de clichês, defende a necessidade de que o artista, o gari, quem seja, não negligencie, não tergiverse e atue além das retóricas diante das injustiças e do cinismo de uma sociedade burguesa e decadente. Aconteçam elas nos Curdistão ou nas ruas de Salvador.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Deleuze tirou a poeira das idéias de Bergson, por Peter Pál Pelbart


No início dos anos 70, em resposta a um amigo que o acusava de estar filosoficamente acuado, o pensador Gilles Deleuze escreveu: "Sou de uma geração, uma das últimas gerações que foram mais ou menos assassinadas com a história da filosofia. A história da filosofia exerce em filosofia uma função repressora evidente... Você não vai se atrever a falar em seu nome enquanto não tiver lido isto e aquilo, e aquilo sobre isto, e isto sobre aquilo. Na minha geração muitos não escaparam disso, outros sim, inventando seus próprios métodos e novas regras, um novo tom. Quanto a mim, "fiz" por muito tempo história da filosofia... Mas eu me compensava de várias maneiras. Primeiro, gostando dos autores que se opunham à tradição racionalista dessa história (e entre Lucrécio, Hume, Espinosa, Nietzsche, há para mim um vínculo secreto constituído pela crítica do negativo, pela cultura da alegria, o ódio à interioridade, a exterioridade das forças e das relações, a denúncia do poder... etc.). O que eu mais detestava era o hegelianismo e a dialética..."


Em seguida, Deleuze explica como conseguiu safar-se desse impasse: a partir dos autores comentados, produzia leituras insólitas, filhos ligeiramente "monstruosos": "O autor precisava efetivamente ter dito tudo aquilo que eu lhe fazia dizer. Mas que o filho fosse monstruoso também representava uma necessidade, porque era preciso passar por toda espécie de descentramentos, deslizes, quebras, emissões secretas que me deram muito prazer. Meu livro sobre Bergson me parece exemplar nesse gênero." (`Carta a um crítico severo', em "Conversações").


O livro sobre Bergson a que o autor se refere em sua carta sai agora em português pela Editora 34 com o título de "Bergsonismo", na fina e esmerada tradução de Luiz Orlandi. Ao debruçar-se sobre um filósofo já "clássico" e hoje um pouco esquecido como Bergson, Deleuze faz neste livro de 1966 uma monografia aparentemente despretensiosa. Aborda os grandes temas de Bergson: a intuição, a memória, a duração, o impulso vital. Mas o leitor se dá conta, desde logo, que está diante de um bergsonismo pouco comum, em todo caso nada espiritualista. A duração (nome dado por Bergson ao tempo) deixa de ser apenas uma experiência psicológica, para tornar-se um caso da duração ontológica, essência variável das coisas, condição da experiência. A memória, por sua vez, não é pensada como sendo interior a nós, nós é que somos interiores a uma gigantesca Memória, imemorial e ontológica, virtual e inconsciente. O impulso vital passa a designar o movimento pelo qual o ser se atualiza, não a partir de um "possível" ideal que o presente viria desovar, mas a partir de uma virtualidade (real) a ser desdobrada, diferenciada. A vida mesma é concebida como uma tal produção de diferenças - a vida é invenção.


Clique aqui para ler o artigo completo.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Confinamento, por Amauri Ferreira

O animal que é colocado à força em um cativeiro reage agressivamente contra essa situação. Entretanto, quando ele está, de alguma forma, adaptado ao cativeiro, apenas come, bebe água, dorme muito. Nessa situação, o animal apenas sobrevive. Embora esteja livre das ameaças dos predadores, esse animal apresenta comportamentos muito diferentes dos que vivem livremente. Limitado pela arquitetura do cativeiro, a sua força não encontra a via suficiente para agir e modificar o ambiente. Enquanto sobrevive no cativeiro, ele não passa pelas experiências fundamentais de procurar o seu alimento, de voar, de enfrentar riscos, de fugir do que o amedronta, de explorar o seu ambiente, de inventar soluções para os problemas que sempre surgem no seu habitat. Com o passar do tempo, esse animal torna-se inevitavelmente entediado porque praticamente tudo que acontece no ambiente artificial em que habita é previsível - as condições em que vive impedem que o imprevisto surja como uma abertura para a sua ação. Em suma, o animal que vive no cativeiro é incapaz de criar um mundo próprio. As tentativas de introduzir nos cativeiros objetos que provocam um mínimo de imprevisto para estimular os sentidos do animal, de maneira que ele possa ter alguma ação, apenas funcionam como paliativos... Já o animal homem, escondido sob o invólucro da racionalidade, busca o confinamento voluntariamente. Ele sobrevive enclausurado no mundo artificial arquitetado para que a sua força seja continuamente impedida de vazar. No seu cotidiano, ele desloca-se de um cativeiro a outro, o que lhe dá uma aparência de “liberdade”: seja no transporte público, no seu local de trabalho, nos estabelecimentos de ensino ou na sua própria casa, a potência do seu corpo de criar as conexões com outros corpos é continuamente refreada. Tal como o animal que sobrevive no cativeiro, o homem experimenta, na maioria das vezes, uma violência contra o seu próprio corpo, realizada dentro dos espaços modernos de confinamento – violência que é autorizada por leis que visam o seu “bem-estar”. Assim é produzido um indivíduo covarde, resignado, inofensivo e, evidentemente, muito fácil de ser enganado. Diante dessa violência, é inevitável que o seu corpo passe a reagir através de vários sintomas que apontam para uma degradação acelerada. Uma vida assim exige respiro e alívio. Constituída por seres aprisionados que amam o poder, a máquina social que organiza os indivíduos dentro dos espaços de confinamento também oferece os paliativos necessários para combater o tédio que os assola, de modo a mantê-los distraídos antes que esses sofredores destruam o funcionamento do perverso sistema de reprodução de seres atrofiados. Consumidor voraz das quinquilharias reproduzidas sob medida para os doentes, o homem-confinado padece cada vez mais porque nem sequer pode imaginar que a criação de um mundo próprio corresponde à liberdade de efetuação da sua natureza – liberdade que se exprime em um corpo apto a fazer, na maioria das vezes, as coisas que somente lhe interessa; liberdade que se exprime em um indivíduo que ama o risco, que dá boas-vindas ao imprevisto, que cria as suas próprias condições de sobrevivência ao inventar os atalhos no mundo em que vive. Antes a ação do que a crença em uma ideologia... Pois somente enquanto vive, o homem é capaz de desprezar os engodos que servem para aliviar, de modo efêmero, o desespero dos confinados. 

Leia outros escritos em http://amauriferreira.blogspot.com