quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A vida de Spinoza, por Colerus


Tradução: Emanuel Angelo da Rocha Fragoso

Trecho:

De resto, se sua maneira de viver era bem regrada, sua conversação não era menos suave e agradável. Sabia admiravelmente bem ser o mestre de suas paixões. Não foi jamais visto nem muito triste nem muito alegre. Ele sabia se dominar na cólera e nas contrariedades que lhe sobrevinham, e não os deixava transparecer; a menor demonstração de seu pesar por algum gesto ou por algumas palavras, ele não hesitava em se retirar no mesmo instante, para nada fazer que fosse contra a conveniência. Ele era muito afável e de um trato fácil, falava freqüentemente com sua hospedeira, particularmente nos períodos de seus partos, e aos da casa quando lhes sobrevinha alguma aflição ou doença; ele não deixava então de consolá-los e de exortá-los a sofrer com paciência dos males, que eram como uma parte que Deus lhes havia designado. Prevenia as crianças de assistir freqüentemente na igreja ao serviço divino, e lhes ensinava o quanto elas deviam ser obedientes e submissas a seus pais. Quando as pessoas da casa retornavam do sermão, perguntava-lhes sempre que proveito tinham alcançado e o que haviam retido para seu aperfeiçoamento Ele tinha uma grande estima pelo meu predecessor, o doutor Cordes, que era um homem sábio, bom naturalmente e de uma vida exemplar; o que dava ocasião a Spinoza de fazer-lhe sempre o elogio. Ele ia mesmo algumas vezes ouvi-lo pregar, e destacava sobretudo a maneira sábia com que explicava a Escritura e as aplicações sólidas que lhe dava. Ele advertia ao mesmo tempo, o seu hospedeiro e aos da casa, a não faltar jamais a nenhuma pregação de tão hábil homem.

Uma vez sua hospedeira perguntou-lhe se acreditava que ela pudesse salvar-se com a religião que professava; ao que respondeu: Vossa religião é boa, vós não deveis procurar outra nem duvidar que vós não obtenhais vossa salvação, contanto que ao vos dedicar à piedade, vós leveis ao mesmo tempo uma vida agradável e tranqüila.

Enquanto permanecia em casa não incomodava a ninguém, passava a maior parte de seu tempo tranqüilamente em seu quarto. Quando lhe acontecia de se encontrar fatigado por ser muito dedicado a suas meditações filosóficas, ele descia para se distrair, e falava aos da casa de tudo o que pudesse servir de matéria a um entretenimento ordinário, mesmo de frivolidades. Entretinha-se também algumas vezes a fumar um cachimbo; ou então, quando queria relaxar o espírito um pouco mais longamente, ele procurava aranhas e as fazia brigarem entre si, ou as moscas que ele jogava na teia de aranha, e olhava em seguida esta batalha com tanto prazer que às vezes caía na risada. Observava também ao microscópio as diferentes partes dos menores insetos, de onde tirava depois as conseqüências que lhe pareciam mais convenientes as suas descobertas.

De resto, ele não tinha nenhum apego ao dinheiro, como nós tínhamos dito, e se contentava em ter, sem se preocupar com o futuro, o que lhe era necessário para sua alimentação e para sua subsistência. Simon de Vries, de Amsterdã, o qual testemunhou muita afeição por ele na Carta vigésima sexta e que o chama ao mesmo tempo seu fidelíssimo amigo (amice integerrime) [NT39], lhe deu um dia de presente uma soma de dois mil florins, para que pudesse viver com um pouco mais de bem-estar; porém Spinoza, em presença de seu hospedeiro, escusou-se polidamente a receber este dinheiro, com o pretexto de não ter necessidade de nada, e que tanto dinheiro, se ele o recebesse, o desviaria infalivelmente de seus estudos e de suas ocupações.

O mesmo Simon de Vries, aproximando-se de seu fim e vendo-se sem mulher e sem crianças, quis fazer seu testamento e o instituir herdeiro de todos os seus bens; porém Spinoza não quis jamais consentir, e demonstrou a seu amigo que não deveria pensar em deixar seus bens, a outro que não fosse o seu irmão que morava em Schiedam, visto que era o mais próximo de seus parentes, e devia ser naturalmente seu herdeiro.

Isto foi executado como ele havia proposto; entretanto, o foi com a condição de que o irmão e herdeiro de Simon de Vries, desse a Spinoza uma pensão vitalícia suficiente para sua subsistência; e esta cláusula foi também fielmente executada. Porém, o que há de particular, é que em conseqüência ofereceu-se a Spinoza uma pensão de quinhentos florins, a qual ele não aceitou porque considerou-a excessiva, de forma que a reduziu a trezentos. Esta pensão lhe foi paga regularmente durante sua vida, e após sua morte, o mesmo Vries de Schiedam se ocupou, ainda, em pagar ao Sr. Van der Spyck o que pudesse lhe ser devido por Spinoza, como aparece na carta de Jean Rieuwertz, impressor da cidade de Amsterdã, encarregado dessa tarefa: ela está datada a 6 de março de 1678 [NT40] e endereçada a Van der Spyck.

Pode-se ainda julgar o desinteresse de Spinoza pelo que ocorreu depois da morte de seu pai. Havia que dividir a herança entre suas irmãs e ele, divisão que lhes haviam imposto judicialmente, apesar de elas terem feito todo o possível para excluí-lo. Porém no momento de repartir, lhes deixou tudo, e não reservou para o seu uso mais do que uma cama, que era realmente muito boa, e as suas sanefas.

Clique aqui para ler o texto completo.


2 comentários:

Cristiane disse...

Recebi hoje, de um amigo, um link para vídeo do prof. Cláudio Ulpiano sobre Spinoza: http://br.youtube.com/watch?v=6cLbiVna81A

Lerei o texto.

Abraços,

Amaureks disse...

Oi, Cristiane. Esse vídeo do Ulpiano é muito bom. O vídeo também está aqui, no blog Usina, na seção "vídeos". Utilize o blog à vontade, tem muita coisa boa por aqui.

Abraços