Obs.: A mensagem abaixo foi enviada aos participantes do curso A filosofia de Benedictus de Spinoza, realizado pela Escola Nômade, em 10/12/08. É, portanto, apenas um esboço de idéias que serão desenvolvidas em breve.
Na última aula, vimos a colher de chá que Spinoza nos deu para explicar o conhecimento intuitivo da nossa mente [escólio da prop. 8 da parte 2 da Ética: a ilustração dos retângulos contidos no círculo], ou seja, a idéia de modos não existentesna duração, mas que estão compreendidos no atributo, isto é, na eternidade da substância: trata-se de uma existência não atualizada. Para facilitar a compreensão, o Thiago deu o exemplo do útero, eu dei o exemplo da semente. Lembrei-me de uma passagem do Ecce Homo, de Nietzsche, que tem fortes ressonâncias com o que falamos na última aula. Volto com o exemplo (é só um exemplo!!!) da semente: a existência atual dela possui a forma tal como a sentimos: idéia de afecção, parte perecível da nossa mente. Porém, há modificações da semente que não estão na duração, mas sim como potência, como virtualidade. Aí ela tem um encontro com a terra, com a água, e certas modificações são atualizadas, o que pode levá-la a metamorfosear-se em planta. Essa é a questão da essência (e a essência, como vimos, não está na duração, mas na eternidade), tanto em Spinoza quanto em Nietzsche: toda potência (ou essência) possui uma capacidade para modificar-se, para metamorfosear-se. Essa questão em Nietzsche é fundamental, e está relacionada ao que ele chama de "Tornar-se o que se é" (para opor ao famigerado "Conhece-te a ti mesmo"). Nietzsche liga essa idéia com os impulsos ou forças ativas inconscientes. Ele diz: "Que alguém se torne o que é pressupõe que não suspeite sequer remotamente o que é. [...] Entretanto segue crescendo a idéia organizadora, a destinada a dominar. [...] Sua tutela suprema revelou-se de tal maneira forte que não pressenti sequer o que em mim crescia - que todas as minhas capacidades brotavam um dia subitamente maduras e em sua perfeição última" (Ecce Homo, Porque sou tão inteligente, 9). Isso que brota é uma atualização ativa da nossa própria potência. No terceiro gênero de conhecimento, somos a causa dessa atualização por conhecermos a essência do corpo e da mente: assim, o nosso corpo torna-se muito mais capaz de ser modificado e de agir sobre a realidade. Tudo vivido, tudo experimentado, tudo sentido...
Vejam, agora, o que Spinoza diz sobre a importância da maneira de viver para conquistar essa liberdade de produzir a si mesmo ou, nas palavras do bigode, tornar-se o que se é: "Ponderava, portanto, interiormente se não seria possível chegar ao novo modo de vida, ou pelo menos à certeza a seu respeito, sem mudar a ordem e a conduta comum de minha existência, o que tentei muitas vezes, mas em vão" (Tratado da correção do intelecto, 3). É evidente que os agenciamentos de poder impedem que capacidades absolutamente desconhecidas do nosso corpo e da nossa mente brotem, subitamente, e tornem-se conscientes para nós. Spinoza nos sinaliza com alguns obstáculos que dificultam a nossa capacidade de compreender adequadamente e de sermos livres: "Com efeito, as coisas que ocorrem mais na vida e são tidas pelos homens como o supremo bem resumem-se, ao que pode depreender de suas obras, nestas três: as riquezas, as honras e a concupiscência. Por elas a mente se vê tão distraída que de modo algum poderá pensar em qualquer outro bem" (Tratado da correção do intelecto, 3). Podemos dizer que, resumidamente, há dois impedimentos para a produção de si: o primeiro, quando morremos ainda jovens demais, com um corpo ainda muito dependente das causas exteriores e, portanto, com menor capacidade de agir sobre a realidade; o outro, refere-se ao modo de vida submetido à moral, aos agenciamentos contrários à nossa natureza. Assim, os momentos de alívio têm a função de distrair a nossa mente: de tal modo passamos por toda a existência ignorantes de nós mesmos e desperdiçamos a maior alegria (ou a "beatitude" spinozista) que podemos experimentar: a produção da nossa própria essência, isto é, a produção de eternidade.
Acréscimo em 14/12/08:
De qualquer modo, a nossa essência é sempre produzida através dos encontros. A cada afecção que é produzida em nós, a nossa essência não é mais a mesma. Portanto, não há como escapar desta verdade eterna: somos diferentes a cada encontro, a cada instante. E cada modificação que experimentamos é absolutamente inédita e singular: este momento em que escrevo esta mensagem nunca existiu e nunca será repetido. Participamos da produção eterna da realidade e não há como escapar disso: "Esse pensamento poderia te esmagar...", já dizia Nietzsche: criamos ou perecemos, não há outra escolha. E como cada experiência é única, podemos considerar cada pensamento e cada modificação do nosso corpo como um traço singular que nos caracteriza durante o nosso percurso existencial. Quando somos ativos na produção da nossa essência, imprimimos ao mundo o nosso traço fundamental para o nascimento de um novo valor. Somos, portanto, transmissores de vida, e nesse movimento de produção de si há, como é evidente, uma variação da condição atual em que se vive. Uma nova maneira de expressar-se, uma alteração no timbre da voz, no olhar, na postura diante da vida. Afetamos mais os outros quando somos mais afetados pela multiplicidade da vida... Nesse momento, ouço a belíssima canção "Heart of gold", de Neil Young: "I wanna live, i wanna give/I've been a miner for a heart of gold"... Que maravilha...
Por Eder Amaral e Silva[1] & Morgana Barbosa Gomes[2]
Semana passada, na UESB, um evento se tornou para nós acontecimento. O I ENEDIS – Encontro de Estudos sobre o Discurso, do qual participamos apresentando o estranho trabalho intitulado “Das dicotomias feitas pó: estética da existência, devir, subjetividade” nos levou além das expectativas mais improváveis em relação a como uma coisa se torna o que ela é. Ainda aqui, uma vez mais, falamos por códigos. Podemos ser mais simples. Sejamos: ocaso (sic) ocorreu no simpósio em que apresentamos o trabalho citado, numa comunicação oral de breves quinze minutos. Encerramos o ciclo de apresentações da manhã de 28 de novembro por volta de 12h15min. Daí em diante, teve início a série de pareceres dos dois professores presentes, Nilton Milanez e um colega seu (do qual não nos lembramos o nome), então responsáveis pelo simpósio. O curioso da estória é a transformação do parecer em julgamento no exato instante em que ambos os professores iniciam sua fala a respeito do nosso trabalho e da nossa apresentação, na qual experimentamos (e ainda com muita timidez) uma performance poética como condutora da proposta.
Entre outras coisas, ouvimo-los dizer que o nosso texto trazia notadamente um discurso de resistência. Resistência à ordem do discurso acadêmico, porque feito em tintas de apelo literário, resistência à norma por não se alinhar a certa padronização da escrita universitária, resistência, em fim, ao instituído. E que optar por tal modo de expressão na seara acadêmica, devíamos saber, implicava em não ser ouvido, na medida em que a ordem do discurso determina o que pode e o que não pode surgir como discurso, o que pode ou não ser dito numa determinada circunstância, a um determinado público, por determinado sujeito, em determinado tempo. Ou entramos nessa ordem do discurso, ou então...
Está lá, na aula inaugural de Michel Foucault no Collège de France, esta importantíssima constatação. Logo após parafraseá-lo (como o fazemos aqui), o professor Nilton arrematou: “não sou eu quem diz isso, é o discurso, é Michel Foucault!”
Sabe quando se tem a sensação de ter ouvido um canto de sereia? Não foi o que ocorreu. Sem entrar em mais detalhes (quem os quiser saber não terá dificuldade, havia outras pessoas participando do “Simpósio III – Discurso, Literatura e Autoria”), atenhamo-nos aqui apenas à situação já descrita, alem de alguns tragicômicos desdobramentos.
Desde o início da apresentação soubemos que seria aquele nosso primeiro e último momento no evento do prof. Nilton (palavras e possessiva advindas do próprio). Dissera que aquilo que propúnhamos estava fora de ocasião, destoava da proposta do Encontro, e que não apareceria em suas próximas edições, palavra. “Isto que vocês apresentaram não tem lugar nesta sala, neste espaço!”. Para não incorrermos em injustiça, salientamos que o mesmo professor afirmou ter sido favorável à aprovação do nosso resumo, não obstante esta ter sido opinião rara entre os pareceristas, o que resultaria na recusa de nosso trabalho não fosse sua intervenção e assunção da responsabilidade pela avaliação. Foi só depois de uma extremada benevolência, de um devir-socrático, de uma salvação talvez, que o professor entendeu haver a necessidade de um acerto de contas... toc, toc, toc... A ordem do discurso bate à nossa porta, pedindo um pouco de voz:
E a instituição responde: “Você não tem por que temer começar; estamos todos aí para lhe mostrar que o discurso está na ordem das leis; que há muito tempo se cuida de sua aparição; que lhe foi preparado um lugar que o honra mas o desarma; e que, se lhe ocorre ter algum poder, é de nós, só de nós, que ele lhe advém”.[3] Duas páginas à frente, Foucault interroga: “Mas, o que há, enfim, de tão perigoso no fato de as pessoas falarem e de seus discursos proliferarem indefinidamente? Onde, afinal, está o perigo?” É ele mesmo quem responde:
(...) suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade.[4] Os trechos colados aqui são talvez os mais citados em trabalhos acadêmicos que fazem uso deste livreto. Se a quantidade de citações lhe garantisse compreensão, por certo Foucault (e Sade, e Nietzsche, e Heidegger, e tantos mais...) seria de domínio largo além dos círculos e catedrais.
Uma pesquisadora brasileira[5] dos estudos da cognição nos leva a pensar que dispomos de dois modos de subjetivação do conhecimento, aos quais ela define como “políticas cognitivas”. Por um lado, haveria a política cognitiva “realista”, sendo aquela que percebe o real como aquilo que está dado, desde sempre, e do qual apenas seleciona, coleta, assimila e faz circular informações, única matéria possível num tal regime cognitivo. Por outro, tem-se o que ela chama de política cognitiva “construtivista”, cuja característica fundamental é a de tomar o mundo como uma invenção, um engenho produzido na hora precisa em que atentamos para ele, em que agimos nele, o que implica inevitavelmente o problema ético do conhecimento.
A situação que vivenciamos no I ENEDIS nos remeteu imediatamente a este problema, porque nos vimos diante de uma nítida manifestação daquele tipo de “realismo”. Porque o problema não está em repetir constatações de um pensador a respeito da realidade que vivemos (e esse “viver” é necessariamente “criar”); o difícil é ver o desperdício da leitura que faz da afirmação crítica mera informação a ser armazenada no repertório técnico, mera unidade de informação; o que espanta é ver o que força os limites da norma ser convertido em regra a ser reproduzida ad eternum e por toda parte, como se estivesse diante de uma prescrição e não de uma análise.
Em função de quê é possível uma tal disposição ao uso de filosofias como a de Michel Foucault – um pensamento que tem por mote justamente a crítica aos poderes instituídos – para rebater o exercício do poder sobre o que quer que se manifeste à margem da ordem? Parodiando o cientista político Jacques Donzelot, seria necessário teorizarmos ainda sobre uma “Polícia do pensamento”?... toc, toc, toc... A ordem do discurso bate novamente à nossa porta, querendo fazer uma pergunta:
O que é afinal um sistema de ensino senão uma ritualização da palavra; senão uma qualificação dos papéis para os sujeitos que falam; senão a constituição de um grupo doutrinário ao menos difuso; senão uma distribuição e uma apropriação do discurso com seus poderes e seus saberes?[6] Da forma que foi possível fazê-lo na ocasião, interpusemos o questionamento acima ao “parecer” que nos foi dado. Entre outras coisas (como, por exemplo, o alerta do outro professor/avaliador, ao fato de que Foucault não defendeu suas teses cantando nem declamando poemas...), surgiu como tréplica que estávamos “pulando o muro do vizinho para falar mal dele”, que ao nos apresentarmos daquele modo dentro de uma academia não podíamos nos furtar do lugar que ocupávamos na própria academia etc., etc... Sim, sim, tens razão, passemos a outra coisa, por gentileza, que essa cantilena já fala por conta própria de tão repetida! Para tranqüilizar quem se aterroriza, não queremos acabar com a academia, viveremos pouco, temos mais o que fazer (dentro dela inclusive). Só não temos esse estranho senso de pura pertença que transforma alguns em guardiães da ordem, incumbidos de controlar qualquer variação que surja ao seu redor para conservar o que já se alcançou, mesmo que seja pouco, mesmo que não seja. Pra quê exemplo maior da piedosa avareza que não cessamos de aprender, que não cessa de nos consumir?
Vai ficando difícil achar leitor com este tamanho de texto, que só quer expressar nossa gratidão pela receptividade. Pra não haver mais delongas, deixamos ao menos uma explicação, já que todo o resto dispensa: o título. Que papo é esse de “eles lêem Foucault como homem”? Quem tiver oportunidade e desejo, por prazer, leia um texto intitulado “A literatura e a vida”, de Gilles Deleuze[7]. Lá Deleuze tenta responder à questão do que faz valer a pena uma escrita... questão que responde, provocativamente, com outra pergunta: “A vergonha de ser um homem: haverá razão melhor para escrever?”. Esse “homem” de que Deleuze afirma se envergonhar não é outro senão a forma-Homem que nos atravessa, qualquer que seja nosso gênero (e se é que eles realmente existem), forma que planta o poder em nós, e nos faz querê-lo como se fosse o ar que respiramos. Dessa perspectiva, como entender que aquele que diz “Não se apaixonem pelo poder”[8] possa ser lido e posto em discurso como um homem? Não precisamos ir além dessa pergunta. Como dissemos no simpósio, fizemos aquela proposta como um jogo, não como uma missão de catequese; queríamos uma dança, não uma competição. Talvez Capoeira... Vale Tudo nunca!
De resto, convidamos Foucault e um seu parceiro saxão, que também não é homem (porque está para além dele, em qualquer sentido) para, agora sim, fazer uma prescrição: “Utilize a prática política como um intensificador do pensamento e a análise como um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.”[9] Quanto a Nietzsche, trazemos um ensinamento que permeia seu trabalho, que faz da vida obra de arte (e não a deixa se tornar um trapo): é preciso muito amor para se fazer uma crítica. Eis aqui nosso exercício de amor (sem objeto e sem objetivo, mas nunca gratuito), ainda que cruel, como foi dito. Se chamamos filósofos ao texto é sempre para conversarmos, até falarmos juntos, ao mesmo tempo, sem muita educação. Não para abduzir nossa própria voz em função de petições de autoridade. Pois é justamente em Foucault que encontramos motivo para pensá-lo como amigo, produzir com ele uma política da amizade, e arriscar, sempre no limite do que agüentamos, sem ressentimento. Com efeito, “somos ainda demasiado competentes, e gostaríamos de falar em nome de uma incompetência absoluta”[10]. É que no Zaratustra gostamos mais da última figura da transmutação – a criança, demasiado inocente, jamais ingênua – do que da primeira – o carregador de fardos. Deste texto esperamos só uma coisa: que se dele surgir qualquer efeito, seja mais assunto de conversa que questão de julgamento.
Estou escrevendo versos realmente simpáticos –
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim![11]
Vitória da Conquista, 1º de dezembro de 2008
[1] E-mail: eder_as@yahoo.com.br
[2] E-mail: morganabg1@yahoo.com.br
[3] Michel Foucault. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996. p. 7. (Grifo nosso)
[4] Idem, p. 8-9. (Grifo nosso)
[5] Virgínia Kastrup. A invenção de si e do mundo: uma introdução do tempo e do coletivo nos estudos da cognição. Campinas: Papirus, 1999.
[6] Michel Foucault. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996. p. 44-5. (Grifos nossos)
[7] O texto faz parte da coletânea de textos de Deleuze chamada Crítica e Clínica, publicada no Brasil pela Editora 34. O texto também está disponível na internet e pode ser facilmente encontrado.
[8] Michel Foucault. Anti-Édipo: Uma introdução à vida não fascista. Cadernos de Subjetividade / Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP. – v. 1, n. 1 (1993) – São Paulo, 1993 [páginas 197 a 200].
[9] Idem, Ibidem. (Grifo nosso)
[10] Gilles Deleuze & Félix Guattari. O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia 1.Lisboa, Portugal: Assírio & Alvim, 2004. p. 399.
[11] Fernando Pessoa. Insônia. In: Poesia Completa de Álvaro de Campos. São Paulo: Cia. das letras, 2007. p. 325
por Félix Guattari
Tradução Nedelka Solís Palma & Eder Amaral e Silva Revisão técnica Valter A. Rodrigues
(...)
Este seminário sobre “as esquizoanálises” não encontrará seu próprio regime a menos que ele mesmo se ponha a funcionar em um nível que eu qualificaria de “meta-modelização”. Dito de outra forma, se ele nos permitir cercar melhor nossos próprios agenciamentos de enunciação – seria melhor dizer: os agenciamentos de enunciação aos quais estamos adjacentes. Neste sentido, faço questão de repetir que nunca concebi a esquizoanálise como uma nova especialidade, que seria chamada a colocar-se nas fileiras do domínio psi. Em minha opinião, suas ambições deveriam ser, ao mesmo tempo, mais modestas e maiores. Modestas porque, se ela deverá existir um dia, é porque já existe um pouco por toda parte, de maneira embrionária, sob diversas modalidades; no entanto, ela não tem nenhuma necessidade de uma fundação institucional dentro da boa e velha regra. Maiores, na medida em que a esquizoanálise tem, do meu ponto de vista, uma vocação para tornar-se uma disciplina de leitura de outros sistemas de modelização. Não a título de modelo geral, mas como instrumento de deciframento de pragmáticas de modelização em diversos domínios. Poder-se-ia objetar que o limite entre um modelo e um meta-modelo não se apresenta sempre como uma fronteira estável. E que, em certo sentido, a subjetividade é sempre mais ou menos atividade de meta-modelização (na perspectiva proposta aqui: transferência de modelização, passagens transversais entre máquinas abstratas e territórios existenciais). O essencial torna-se então efetuar um deslocamento do acento analítico que consiste em fazê-la derivar de sistemas de enunciado e de estruturas subjetivas pré-formadas para agenciamentos de enunciação capazes de forjar novas coordenadas de leitura e de “pôr em existência” representações e proposições inéditas.
A esquizoanálise será, portanto, essencialmente excêntrica em relação às práticas psi profissionalizadas, com suas corporações, sociedades, escolas, iniciações didáticas, “passe”, etc. Sua definição provisória poderia ser: a análise da incidência dos agenciamentos de enunciação sobre as produções semióticas e subjetivas, em um contexto problemático dado. Eu voltarei a essas noções de “contexto problemático”, de cena e de “posto em existência”. Por enquanto, me limito a mostrar que eles podem referir-se a coisas tão diversas como um quadro clínico, um fantasma inconsciente, uma fantasia diurna, uma produção estética, um fato micropolítico... O que conta aqui é a idéia de um agenciamento de enunciação e de uma circunscrição existencial, que implica o desenvolvimento de referências intrínsecas, ou seja, de um processo de auto-organização ou de singularização.
Por que esse retorno, como um leitmotiv, aos agenciamentos de enunciação? Para evitar atolar-se, tanto quanto for possível, no conceito de “Inconsciente”. Para não reduzir os fatos da subjetividade a pulsões, afetos, instâncias intra-subjetivas e relações inter-subjetivas. Como é óbvio, esse gênero de coisas terá um lugar nas preocupações esquizoanalíticas, mas somente a título de componente e sempre em certos casos de enfoque. Destacamos, por exemplo, que existem agenciamentos de enunciação não comportando componentes semiológicos significacionais, agenciamentos que não têm componentes subjetivos, outros que não têm componentes conscienciais... O agenciamento de enunciação será levado, assim, a “exceder” a problemática do sujeito individuado, da mônada pensante conscientemente delimitada, das faculdades da alma (o entendimento, a vontade...), na sua acepção clássica. Parece-me importante sublinhar de passagem que, no início, sempre tratamos com conjuntos, com conjuntos que são, a princípio, indiferentemente materiais e/ou semióticos, individuais e/ou coletivos, ativamente maquínicos e/ou passivamente flutuantes.[continua...]
Clique aqui para ler o texto completo, publicado na Revista Ensaios (Universidade Federal Fluminense), n.1, v.1, ano 1, 2° sem. 2008.
Rua Leonídio Oliveira, 450A - Recreio - Tel.: [77] 3421-9550 - CEP 45020-341 - Vitória da Conquista - BA
O QUE DESEJAMOS
Usina tem como proposta ser um pólo de agenciamento desejante envolvendo pessoas interessadas em pensar e agir no espaço da cidade de maneira produtiva e criadora, investindo na invenção de vias e matérias de expressão e singularização e trabalhando para a constituição de territórios existenciais com potência de transformação coletiva.
As vias de realização de nossa proposta envolvem a constituição de redes, parcerias e colaborações com grupos, organizações, associações que se reconheçam e se proponham como aliados.
O que cultivamos
Filosofia, Clínica, Cinema, Teatro, Artes Plásticas, Música, Ciências [Humanas e Não-Humanas], Política, Ética, Práticas Relacionais, Ações Culturais/Coletivas...
Não existe obra de arte que não faça apelo a um povo que ainda não existe. (Deleuze)
[...] Pertence realmente ao seu tempo, é verdadeiramente contemporâneo aquele que não coincide perfeitamente com ele, nem se adequa a suas pretensões e é, portanto, nesse sentido, inatual. Mas, justamente por isso, a partir desse afastamento e desse anacronismo, é mais capaz do que os outros de perceber e de apreender o seu tempo. [...] Um homem inteligente pode odiar o seu tempo, mas sabe que irrevogavelmente lhe pertence, sabe que não pode fugir de seu tempo. (Giorgio Agamben)
O trabalho da clínica é acompanhar os movimentos afetivos da existência, construindo cartas de intensidade ou cartografias existenciais que registram menos os estados que os fluxos, menos as formas que as forças, menos as propriedades de si que os devires para fora de si. Traçamos, então, as linhas sedentárias, nômades, de fuga. Estas são as que se evadem dos territórios, que desmancham estados pelo efeito do aumento dos quanta afectivos de uma dada existência. Linhas de fuga que correm o risco constante de se tornar linhas de abolição e, nesse caso, os saltos qualitativos, as fendas criadas no contínuo de uma existência, podem nos precipitar em um buraco negro improdutivo. [...] [Eduardo Passos e Regina Benevides, Passagens da clínica]
OS SENTIDOS DA CLÍNICA Coord. Valter A. Rodrigues Docentes: Antonio Moura, Daniel Marinho Drummond, Leonardo Maia, Valter A. Rodrigues Carga Horaria: 90 h, 30 encontros de 3 h cada. Aos sábados. Turma 1: das 9 às 12 (inicio em 22.05.2010. Turma 2: das 14 às 17h (início em 29.05.2010). Valor: 1 + 5 de R$ 150,00 Local: Rua Leonídio Oliveira, 450 A - Recreio - 45020-341 - Vitória da Conquista - BA Tel. 3421-9550. Certificado: Pós-Grad
Carga horária: 20 encontros de 3h/a[60 h/a] + 40 horas de atividades complementares.
Certificação: FTC - Colegiado de Psicologia. 2. [MÓDULO I] ESQUIZOANÁLISE : UMA INTRODUÇÃO Coord.Valter A. Rodrigues Duração: de 16 agosto a 20 de dezembro de 2008. Todos os sábados, das 9 às 12 horas. Carga horária:60 h/a (20 encontros de 3h/a) Valor:1 + 4 de R$ 90,00. Vagas: 25 [vinte e cinco] LOCAL: Casa Memorial Régis Pacheco – Pça. Tancredo Neves, 91 - Centro Certificado (Curso de Extensão) [pela FTC – Colegiado de Psicologia]: 60 h/a (freqüência mínima de 75%) ou 100 h/a (participação em atividades complementares; trabalho de conclusão) 3. [MÓDULO II] ESQUIZOANÁLISE: MICROPOLÍTICAS DO DESEJO Coord. Valter A. Rodrigues Duração: 09 de agosto a 13 de dezembro de 2008, das 15:00 às 18:00. Pré-requisito: ter participado de Esquizoanálise: uma introdução ou ter familiaridade/leituras prévias dos textos de Deleuze&Guattari.
4. A DIMENSÃO ÉTICO-AFETIVA DA CLÍNICA Grupo de Estudos e Supervisão Coord. Valter A. Rodrigues No. vagas: 8 [oito] Duração: indeterminado. Periodicidade: encontros semanais de 2:30 h. Valor: R$ 250,00 mensais Público-alvo: psicoterapeutas, médicos e demais profissionais que se dedicam à clínica.
Local:Centro Médico Itamaraty - Av. Octavio Santos, 381, sala 502. Tel.: (77) 8817-5456 e (77) 9136-6808
TRANS_FORM_AÇÕES DO COTIDIANO: ARTES POLÍTICAS PRA MOÇADA Coord.Eder Amaral e Silva No. de vagas: 25 [vinte e cinco] Início em 23 de agosto de 2008 15 encontros de 2h + 30h de práticas usinagrupodetudos@gmail.com Clique aqui e baixe o folder do curso. GRUPOS DE LEITURA
CARTOGRAFIAS DA DIFERENÇA: VIDA, PENSAMENTO E INVENÇÃO Coord. de Maicon Barbosa Início: 30 de agosto Local: FTC (módulo II, sala 204), R. Ubaldino Figueira, 200 - Exposição - Vitória da Conquista Carga horária: 20 encontros com 2 h de duração cada. Aos sábados pela manhã. Valor: R$ 20,00 mensais.
Telefone: 8104-3984
Mais informações: Fale Conosco ou tels.: Valter - (77) 8817-5456 / (77) 9136-6808 / Eder - (77) 9123-4923/ Maicon - (77) 8104-3984
* ESCOLA NÔMADE Clique aquipara conhecer a programação da Escola Nômade, em São Paulo: cursos e grupos de estudos sobre Nietzsche, Spinoza, Deleuze, Bergson, etc.
... o presente de um organismo surge em cada instante como uma transformação do presente do organismo nesse instante. O futuro de um organismo nunca está determinado em sua origem (Maturana).
Livrem-se das velhas categorias do Negativo (a lei, o limite, as castrações, a falta, a lacuna) que por tanto tempo o pensamento ocidental considerou sagradas, enquanto forma de poder e modo de acesso à realidade. Prefiram o que é positivo e múltiplo, a diferença à uniformidade, os fluxos às unidades, os agenciamentos móveis aos sistemas. Considerem que o que é produtivo não é sedentário, mas nômade. (Foucault, Uma introdução à vida não fascista, pref. à ed. norte-americana de O Anti-Édipo.)
* I Colóquio Internacional Atividades e Afetos UFMG, Belo Horizonte, de 14 a 16 maio. Usina participou do Colóquio com a mesa-redonda DEVIR-CIDADES: TERRITÓRIOS DA DIFERENÇA. (leia os resumos da mesa em Programação e Caderno de resumos, p. 45-50 [15 de maio, mesa 7]. Eixo Temático: Intervenções em espaços urbanos. Trabalhos: - TAZeando pelo (fim de um) mundo: invenção de Zonas Autônomas Temporárias na academia, por Eder Amaral e Silva Espaço-rua - codificações e reinvenções relacionais/afetivas que permeiam esse lugar, por Maicon Barbosa Silva O homem urbano desconhece as ruas dos homens que as habitam, por Valter A. Rodrigues
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* CINEMA SEIS E MEIA Todas as 4as. feiras, às 18h30 h, no Teatro Municipal Carlos Jehovah/Centro, exibição de filmes (curta, média e/ou longa-metragem) - Entrada franca [Programação anterior: fev.; março; abril; maio; junho]
"[...] Na verdade, essas teorias [as ciências sociais e psicológicas, ou o campo do trabalho social] servem para justificar e legitimar a existência dessas profissões especializadas, desses equipamentos segregativos e, portanto, da própria marginalização de alguns setores da população. As pessoas que, nos sistemas terapêuticos ou na universidade, se consideram simples depositárias ou canais de transmissão de um saber científico, só por isso já fizeram uma opção reacionária. Seja qual for sua inocência ou boa vontade, elas ocupam efetivamente uma posição de reforço dos sistemas de produção de subjetividade dominante” (Guattari & Rolnik, Micropolítica; cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 1986, p. 29).
ARAÚJO, Fábio. Um passeio esquizo pelo acompanhamento terapêutico; dos especialismos à política da amizade. Niterói: edição do autor, 2007.
BAUMAN, Zigmunt. Amor líquido; sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed. 2004
BERGSON, Henri. A evolução criadora. São Paulo: Martins Fontes, 2005
BERGSON, Henri. Matéria e memória; ensaio sobre a relação do corpo com o espírito. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
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Lançado em DVD duplo o último filme de Glauber Rocha. Leia comentários do diretor e da crítica em Tempo Glauber.
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BIANCHI, Sérgio (2005). Quanto vale ou é por quilo?. Brasil, 2005. 108 min., cor (Europa) *
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CARNÉ, Marcel (1945). O boulevard do crime (Les enfants du paradis - le boulevard du crime/L'Homme blanc). 1a. e 2a. época. França, 1945. 100 + 90 min., p&b (DVD Versátil)
CARVALHO, Luiz Fernando (2001). Lavoura arcaica. Brasil, 2001. 172 min., cor (Europa) *