Parte 2
Apesar de haver, num certo aspecto, uma relação íntima entre o capitalismo e a esquizofrenia, há, no fundo, uma distinção fundamental entre eles. A relação íntima se dá quando “o capitalismo faz passar por todo o lado fluxos-esquizos que animam as ‘nossas’ artes e as ‘nossas’ ciências...” (p. 255). Mas essa afinidade encerra-se em razão do capitalismo ser o limite relativo de todas as sociedades (primitivas e despóticas), na medida em que realiza a descodificação dos fluxos (ao contrário da codificação primitiva e da sobrecodificação despótica), para axiomatizá-los. “O que ele descodifica com uma mão, axiomatiza com a outra” (p. 256). Já a esquizofrenia é o limite absoluto, que faz passar os fluxos livremente, sem axiomatizações. Por isso os fluxos esquizofrênicos são o terror do capitalismo. “A esquizofrenia não é a identidade do capitalismo mas, pelo contrário, a sua diferença, o seu desvio e a sua morte” (p. 256). Essa distinção se torna mais nítida quando ocorre a paralisação do processo esquizofrênico, encerrando-se numa reterritorialidade autísca: uma violenta paralisação que produz o esquizofrênico como entidade clínica - produção social do esquizofrênico como farrapo autístico, que escapou à axiomatização social, mas não produziu uma nova terra. “A nossa sociedade produz esquizos como produz shampô Dop ou automóveis Renault, com a única diferença de que eles não são vendáveis” (p. 255).
A axiomatização é, de fato, uma violência. E ainda esconde a natureza perversa, puramente cínica do capitalismo. O indivíduo que era codificado numa sociedade primitiva sabia a razão de sofrer a codificação (produzir uma memória de aliança, de futuro); o indivíduo que era sobrecodificado na sociedade despótica sabia que o excedente que era produzido destinava-se para o gozo e o consumo do déspota; mas é com a axiomatização que o inconfessável começa: “Não há nenhuma operação financeira ou econômica que, se fosse traduzida em termos de código, não revelasse o seu caráter inconfessável, isto é, a sua perversão intrínseca ou o seu cinismo essencial (a época da má consciência é também a do puro cinismo)” (p. 257). A axiomatização serve apenas para a acumulação do capital: é isso que é inconfessável... (digam o que quiserem sobre a função do ensino ou do trabalho nas sociedades modernas: as imagens de um “futuro promissor” escondem uma violenta axiomatização que está a serviço da máquina capitalista). Um fluxo descodificado de operários: a burguesia diz “sim, reconhecemos-os como classe” e adiciona um axioma (o que era descodificado foi axiomatizado). Em seguida, outro fluxo descodificado de rebeliões da - agora reconhecida - classe operária: a burguesia diz “tudo bem, atenderemos as suas reivindicações, diminuiremos a jornada de trabalho” e adiciona outros axiomas (férias, plano de carreira, etc.). Axiomas para o proletariado, axiomas para os sindicatos, axiomas para os artistas, enfim, a máquina capitalista resolve muito bem os fluxos descodificados. O que antes era uma ameaça, a morte que ensaiava vir de dentro, transforma-se em mais uma peça reprodutora da máquina. E isso se passa até com os fluxos descodificados que atravessaram o muro: as obras revolucionárias produzidas por grandes artistas e escritores, por exemplo, são axiomatizadas e consumidas pela massa, sem oferecer nenhum risco à maquina capitalista (Nietzsche, Deleuze, a esquizoanálise, só para ficar nesses exemplos, também são axiomatizados...). “A axiomática do capitalismo é tão rica, acrescenta-se sempre um axioma para os livros dum grande escritor (...) ou para o discurso dos loucos que se pode sempre ouvir dentro do quadro duma axiomática hospitalar, administrativa e psiquiátrica“ (p. 257). “E o poder do capitalismo está precisamente no fato de a sua axiomática nunca se saturar, ser sempre capaz de acrescentar mais um axioma aos axiomas precedentes” (p. 261).
O Estado despótico transcendente transforma-se num Estado subordinado aos fluxos de capital, tendo a função de ser o regulador desses fluxos. “Nunca um Estado perdeu tanto poder para se pôr com tanta força ao serviço de um signo de poder econômico. E o Estado capitalista desempenha este papel há muito tempo – diga-se o que se disser –, desde o princípio, desde a sua gestação sob formas semi-feudais ou semi-monárquicas: ele controla, do ponto de vista do fluxo dos trabalhadores ‘livres’, a mão-de-obra e os salários; outorga, do ponto de vista do fluxo de produção industrial e mercantil, monopólios, condições favoráveis à acumulação. (...) Não houve nunca um capitalismo liberal” (p. 263). Pode nos parecer óbvio que o Estado serve aos interesses da chamada classe dominante. Mas D&G vão além e dizem que, “do ponto de vista da axiomática capitalista, só há uma classe verdadeiramente universalista que é a burguesia” (p. 264). Portanto, os capitalistas e os trabalhadores são peças indispensáveis do sistema, ou seja, ambos são escravos, constituindo, então, uma mesma classe. “Com a burguesia acontece, de fato, algo de novo: o desaparecimento do gozo como fim, a nova concepção de conjunção segundo a qual o único fim é a riqueza abstrata e a sua realização noutras formas que não as de consumo. (...) já não há senhores, já só há escravos que governam outros escravos. (...) Não que o homem seja escravo da máquina técnica; mas o burguês – escravo da máquina social – dá o exemplo, absorve mais-valia cujos fins não têm nada a ver com o gozo: mais escravo que o último dos escravos, primeiro servo desta ávida máquina, besta de reprodução do capital, interiorização da dívida infinita. Eu também sou escravo – é o que agora diz o senhor” (p. 265). D&G dizem que a oposição não é entre a classe burguesa e a classe operária, mas “entre a classe e os fora-da-classe, entre os servos da máquina e os que a fazem saltar ou estouram com as suas peças, entre o regime da máquina social e o das máquinas desejantes (...) entre os capitalistas e os esquizos, na sua intimidade fundamental ao nível da descodificação e na sua hostilidade fundamental ao nível da axiomática” (p. 266).
A axiomática social das sociedades modernas caracteriza-se por dois pólos que a constituem: a paranóia e a esquizofrenia. O movimento de reterritorialização e axiomatização refere-se ao pólo paranóico; o movimento de desterritorialização e de descodificação refere-se ao pólo esquizofrênico. “Estrangulam um, mas expandem-se ou derramam-se pelo outro” (p. 271). As sociedades modernas sempre oscilam entre um movimento reacionário/fascista e um movimento revolucionário/esquizofrênico. Por isso o capitalismo vê a sua morte sempre muito próxima (nos movimentos esquizofrênicos) e a esconjura através de uma ditadura que remete aos resíduos de um Estado despótico (movimentos reacionários): “E o que é que se tem de fazer para que a descodificação e a desterritorialização, constitutivas do sistema, não o façam escapar por um dos seus cantos, que escaparia à axiomática e estouraria com a máquina (um chinês no horizonte, uma lança-mísseis cubano, um árabe que desvia aviões, o rapto dum cônsul, um pantera-negra, um Maio-68, ou ainda, hippies drogados, panascas em fúria, etc.)? (...) O capitalismo, assim como o socialismo, hesitam entre o significante despótico que adoram, e a figura esquizofrênica que os arrasta. (...) Há e houve sempre um só Estado, o Urstaat, a formação despótica asiática que constitui o único corte para toda a história, visto que até a axiomática social moderna só pode funcionar se o ressucitar como um dos pólos entre os quais se exerce o seu próprio corte. Democracia, fascismo, socialismo – qual é que não vive assombrado pelo Urstaat como modelo inigualável?” (p. 272). Até o Estado que se banha em um discurso democrático não deixa de recorrer às suas origens despóticas: nem mesmo o Estado democrático americano deixou de impor à força uma reterriorialização e axiomatização no Iraque (estabelecimento da democracia, das empresas norte-americanas, etc.). Como diria John Holloway: “O capital se movimenta”.
Já o Édipo constitui-se na seguinte operação: a família torna-se privatizada quando as relações de aliança e de filiação passam a ser encarregadas pelo capital, ou seja, pelo capital industrial (filiativo) e pelo capital comercial e financeiro (aliança). A degradação ambiental e social produzida pela aliança e filiação do capital fizeram da família um microcosmo. Desta forma, restou à família privatizada sofrer uma aplicação do campo social, que é realizada de duas formas: a primeira é a produção de imagens de pessoas sociais e a segunda é a produção de imagens de pessoas privadas. “As pessoas individuais são inicialmente pessoas sociais, (...) configurações ou imagens produzidas pelas (...) puras ‘figuras’ do capitalismo. (...) As pessoas privadas são pois imagens de segunda ordem, imagens de imagens. (...) Estas pessoas privadas são formalmente determinadas no lugar da família como pai, mãe, filho. Mas esta família não é uma estratégia que, com alianças e filiações, se abra sobre todo o campo social, (...) mas é uma simples tática em que o campo social se fecha, à qual aplica as suas exigências autônomas de reprodução. (...) As alianças e filiações já não passam pelo homem mas pelo dinheiro; a família torna-se então um microcosmo capaz de exprimir o que já não domina” (p. 276). A família privatizada não domina a produção social, o que a leva ao consumo de imagens de pessoas sociais e privadas. Tudo se transforma em produção e consumo de imagens: “E assim o capitalismo preenche o seu campo de imanência com imagens: até a miséria, o desespero, a revolta e, por outro lado, a violência e a opressão do capital, se tornam imagens de miséria, de desespero, de revolta, de violência e de opressão” (p. 275). “(...) tudo o que acontece no mundo passa-se em família, sem que seja preciso sair da frente da televisão” (p. 262). O Édipo nasce desse movimento de aplicação do social sobre a família privatizada: “Ele nasce da aplicação, no sistema capitalista, das imagens sociais de primeira ordem às imagens familiares privadas de segunda ordem. É o conjunto de chegada que responde a um conjunto de partida socialmente determinado” (p. 276). “Para cada homem e mulher, o universo limita-se a ser o que envolve a sua absoluta e pequena imagem. (...) Cada um de nós é agora um pequeno microcosmo triangulado, e o eu narcísico confunde-se com o sujeito edipiano” (p. 277). É a época do cinismo, onde nada é confessado: o desejo é capturado por investir uma imagem de pessoa social – uma imagem produzida pelo campo social, ou seja, uma função que atende os interesses da acumulação capitalista, apenas isso. E, como é evidente, trata-se sempre de uma imagem de uma pessoa social bem-sucedida: eis a primeira imagem consumida. O consumo da segunda imagem, a de pessoa privada, é derivada da primeira: a boa imagem de pai, mãe, filho. É o euzinho privatizado, arrogante, bem-sucedido profissionalmente e pessoalmente (“Vejam como sou um profissional de sucesso, vejam como o meu casamento é bem-sucedido!”). O social não importa mais, dá-se as costas para o espaço público, tudo passa a ser privatizado: “o meu carro, a minha casa, os meus seguranças, o meu cachorro”. Dizem os anúncios publicitários com imagens de famílias sorridentes: “Você e sua família terão segurança e vantagens!”... “O triângulo edipiano é a territorialidade íntima e privada que corresponde a todos os esforços de reterritorialização social do capitalismo” (p. 278).
A família privatizada é constantemente reforçada pelo campo social... inclusive pela psicanálise. E, além da época do cinismo, também vivemos a época da má consciência. A interiorização da dívida infinita, extrema interiorização do campo capitalista. “E, mais uma vez, não é a psicanálise que inventa o Édipo: ela dá-lhe apenas uma última territorialidade, o divã, como última lei, o analista déspota e perceptor de dinheiro” (p. 281). Freud conservou ainda uma concepção de desejo familiar e reforçou a má consciência: “afinal, era isso que você queria...” É a psicanálise como dispositivo social de esmagamento da produção desejante, máquina terrível de reprodução da falta, da culpabilidade: “Foi o que Foucault mostrou em páginas tão belas: o familiarismo inerente à psicanálise não destruiu a psiquiatria clássica – antes a consagra, a conclui. Depois do louco da terra e do louco do déspota, o louco da família; o que a psiquiatria do século XX pretende organizar no asilo, (...) acaba fora do asilo, na psicanálise e no gabinete do analista” (p. 283). “Através da psicanálise é sempre o discurso da má consciência e da culpabilidade que se desenvolve e se alimenta (é a isto que chamam curar). E, pelo menos em dois pontos, Freud absolve a família real exterior de qualquer falta, para assim poder interiorizar melhor a falta e a família na criança. O modo como ele estabelece um recalcamento autônomo, independente da repressão; e o modo como renuncia ao tema da sedução da criança pelo adulto, e o substitui pelo fantasma individual que transforma os pais reais em inocentes, ou mesmo em vítimas” (p. 282).
Obs.: Este texto foi escrito no segundo semestre de 2007 e enviado, por e-mail, aos participantes de um grupo de estudos do Anti-Édipo, de Deleuze & Guattari. As páginas citadas referem-se à edição portuguesa da editora Assírio&Alvim.