terça-feira, 22 de janeiro de 2008

desaforismo nº0

o adiamento é a pior miséria da escrita. pensa-se muito, fala-se demasiado, risca-se círculos e traços soberbamente desordenados num pedaço ainda vazio do papel... mas a escrita permanece à espreita, esquivando-se até o inevitável: aquela hora em que a caneta já não foge ao que dela se espera, momento em que o teclado deixa de repetir inutilmente senhas de acesso... daí pra frente o fluxo frenetiza, faz transbordar aquela represa angustiante de palavras-coisa circulando pelo corpo [pois palavra nenhuma mora só na cabeça...]. de agora em diante, estes desaforismos serão algumas das minhas frestas no paredão da represa... quem quiser desafor(ism)ar, esteja à vontade. o nº 0 cumpre já seu propósito, ensaiar uma abertura, mas sem começo, sem inauguração, sem fundamento... por ora, talvez seja a represa que viabiliza fluxos d'agua-letra mais intensos, não sei... será que o adiamento é o melhor fermento da escrita?

2 comentários:

Morena Sebadelhe disse...

A cada não começo me despeço dos tropeços
A cada não começo recomeço o meio,
[sem início, sem fim, devir...
E se não meço palavras, ao menos peço
De (um) novo começo, sem metas ou frases em linhas retas
Cometa
Os trajetos que sua luz (minha) retorne a desaguar em letras/désir...
Permita e minta
In’finito,
[sempre começo...

Qui veut la fin veut les moyens.

mxqco disse...

UM LANCE DE DADOS JAMAIS ABOLIRÁ O ACASO

Gostaria de que esta Nota não fosse lida ou que, apenas percorrida, fosse logo esquecida; ela ensina, ao Leitor hábil, pouca coisa situada além de sua penetração: mas pode perturbar o ingênuo que deve lançar os olhos para as primeiras palavras do Poema, a fim de que as seguintes, dispostas como estão, o encaminhem às últimas, o todo sem novidade senão um espaçamento da leitura. Os "brancos" com efeito assumem importância, agridem de início; a versificação os exigiu, como silêncio em derredor, ordinariamente, até o ponto em que um fragmento, lírico ou de poucos pés, ocupe, no centro, o terço mais ou menos da página: não transgrido essa medida, tão-somente a disperso. O papel intervém cada vez que uma imagem, por si mesma,cessa ou recede, aceitando a sucessão de outras, e como aqui não se trata, `a maneira de sempre, de traços sonoros regulares ou versos - antes, de subdivisões prismáticas da Idéia, o instante de aparecerem e que dura o seu concurso, nalguma cenografia espiritual exata, é em sítios variáveis, perto ou longe do fio condutor latente, em razão da verossimilhança que se impõe o texto. A vantagem, se me é lícito dizer, literária, dessa distância copiada que mentalmente separa grupos de palavras ou palavras entre si, afigura-se o acelerar por vezes e o delongar também do movimento, escandindo-o, intimando-o mesmo segundo uma visão simultânea da Página: esta agora servindo de unidade como alhures o Verso ou linha perfeita. A ficção assomará e se dissipará, célere, conforme à mobilidade do escrito, em torno das pausas fragmentárias de uma frase capital desde o título introduzida e continuada. Tudo se passa, para resumir, em hipótese; evita-se o relato. Ajunte-se que deste emprego a nu do pensamento com retrações, prolongamentos, fugas, ou seu desenho mesmo, resulta, para quem queira ler em voz alta, uma partitura. A diferença dos caracteres tipográficos entre o motivo preponderante, um secundário e outros adjacentes, dita sua importância à emissão oral e a disposição em pauta, média, no alto, embaixo da página, notará o subir ou descer da entonação. Somente certas direções muito audazes*, usurpações etc., formando o contraponto desta prosódia, permanecem numa obra, a que faltam precedentes, em estado elementar: não que me pareçam oportunos os ensaios tímidos; mas não me é dado, afora uma paginação especial ou de volume que me pertença, num Periódico, por mais corajoso, amável e convidativo que se mostre às belas liberdades, agir em demasia contra os usos. Terei, não obstante, indicado do Poema incluso, mais do que um esboço, um "estado", que não rompe em todos os pontos com a tradição; levado adiante sua apresentação em muitos sentidos até onde ela não ofusque ninguém: o suficiente para abrir os olhos. Hoje ou sem presumir do futuro o que sairá daqui, nada ou quase uma arte, reconheçamos facilmente que a tentativa participa, com imprevisto, de pesquisas particulares e caras ao nosso tempo, o verso livre e o poema em prosa. Sua reunião se cumpre sob uma influência, eu sei, estranha, a da Música ouvida em concerto; encontrando-se nesta muitos meios que me parecem pertencer às Letras, eu os retomo. O gênero, que se constitua num,como a sinfonia, pouco a pouco, a par do canto pessoal, deixa intacto o antigo verso, ao qual conservo um culto e atribuo o império da paixão e dos devaneios; enquanto que seria o caso de tratar, de preferência (assim como segue), certos assuntos de imaginação pura e complexa ou intelecto; não subsiste razão alguma para excluí-los da poesia - única fonte.

Stéphane Mallarmé