quinta-feira, 5 de junho de 2008

Passagens da clínica, por Eduardo Passos e Regina Benevides

Repetimos a pergunta: o que pode a clínica? A questão insiste, obrigando-nos a retomar a relação da clínica com o fora da clínica, que é convocado nesta experiência que chamamos de transdisciplinar. Entre a clínica e a arte, a clínica e a filosofia, e entre a clínica e a política, a passagem é feita por modulações. Modulando a pergunta espinosista sobre o que pode um corpo, formulamos, então, nossa questão.
Perguntar o que pode é propor o tema do poder, da potência que nos impulsiona a fazer essas passagens. Assim, indicamos a direção que queremos sempre dar ao nosso percurso. Percorrer essas modulações da questão, passar da clínica à arte, à filosofia e à política, é ter de habitar esse espaço intervalar do entredomínios, do que não é totalmente isto ou aquilo, do que está na operação da conjunção "e", lá onde proliferam encontros e composições.
Em trabalho anterior, ao parafrasear a pergunta espinosista sobre o que pode um corpo, propusemos esta outra: o que pode a clínica, tomando a argumentação deleuziana acerca da Ética? Deleuze, ao ler a argumentação de Espinosa acerca da relação expressiva entre a substância divina e os modos existentes, destaca o jogo de equivalências entre as "duas tríades do modo finito". Aproveitando os comentários de Deleuze e forçando a passagem da filosofia à clínica, entendemos a clínica como um modo finito ou modo existente. Como tal, ela toma as afecções como seu ponto de incidência, definindo-se ela própria como um conjunto de afecções. Perguntar o que pode a clínica é o mesmo que perguntar do que a clínica é composta, o que, por sua vez, equivale a perguntar como ela pode ser afetada e que conjunto de afecções (affectio) exprimem a sua essência. Dito de outra maneira, dizer que a clínica tem uma composição equivale a dizer que ela lida com composições. É nesse sentido que podemos pensar a atitude de colocação do próprio caso da clínica em análise, indagando acerca do que nela é posto em relação, e de como ela afeta e é afetada nas relações: a ética da clínica. A clínica é, ao mesmo tempo, um modo de lidar e acompanhar casos e um caso ela mesma. A clínica dos casos e o caso da clínica. [...]

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OBS.: este texto faz parte do livro Polifonias; clínica, política e criação, organizado por Auterives MACIEL Jr, Daniel KUPERMANN e Silvia TEDESCO e publicado, em 2005, no Rio de Janeiro, por Contra Capa Livraria, em parceria com o Mestrado em Psicologia da Universidade Federal Fluminense. A divulgação do texto neste blog é um convite à leitura do livro, que reúne excelentes artigos derivados de comunicações feitas em dois eventos organizados pelo Mestrado em Psicologia da UFF, A clínica em questão: conversações sobre clínica, política e criação, ocorrido nos dias 4 e 5.12.2003, e A arte da clínica e a clínica da arte, realizado em 24 e 25.11.2004. Há disponibilidade do livro na editora.

Um comentário:

Elaine R.C.Romero disse...

Valter, boa noite! A prefeitura do Rio de janeiro pediu cinco textos desse livro em um Edital e NÃO encontro mais para venda nem na Editora. Seria possível você postar no Blogger? Não quero abusar, mas foi a única forma que encontrei de ler os textos, que paracem ser ótimos, deste livro. OBRIGADA.
- Quando a clínica se encontra com a política
-Diagnósticos da contemporaneidade
- O problema da escolha e os impasses da clínica na era do biopoder
-Resistência no encontro afetivo e criação na experiência clínica.
-Invasão do cotidiano: algumas direções para pensar uma clínica das subjetividades
contemporâneas

obrigada
Valter