

No início dos anos 70, em resposta a um amigo que o acusava de estar filosoficamente acuado, o pensador Gilles Deleuze escreveu: "Sou de uma geração, uma das últimas gerações que foram mais ou menos assassinadas com a história da filosofia. A história da filosofia exerce em filosofia uma função repressora evidente... Você não vai se atrever a falar em seu nome enquanto não tiver lido isto e aquilo, e aquilo sobre isto, e isto sobre aquilo. Na minha geração muitos não escaparam disso, outros sim, inventando seus próprios métodos e novas regras, um novo tom. Quanto a mim, "fiz" por muito tempo história da filosofia... Mas eu me compensava de várias maneiras. Primeiro, gostando dos autores que se opunham à tradição racionalista dessa história (e entre Lucrécio, Hume, Espinosa, Nietzsche, há para mim um vínculo secreto constituído pela crítica do negativo, pela cultura da alegria, o ódio à interioridade, a exterioridade das forças e das relações, a denúncia do poder... etc.). O que eu mais detestava era o hegelianismo e a dialética..."
Em seguida, Deleuze explica como conseguiu safar-se desse impasse: a partir dos autores comentados, produzia leituras insólitas, filhos ligeiramente "monstruosos": "O autor precisava efetivamente ter dito tudo aquilo que eu lhe fazia dizer. Mas que o filho fosse monstruoso também representava uma necessidade, porque era preciso passar por toda espécie de descentramentos, deslizes, quebras, emissões secretas que me deram muito prazer. Meu livro sobre Bergson me parece exemplar nesse gênero." (`Carta a um crítico severo', em "Conversações").
O livro sobre Bergson a que o autor se refere em sua carta sai agora em português pela Editora 34 com o título de "Bergsonismo", na fina e esmerada tradução de Luiz Orlandi. Ao debruçar-se sobre um filósofo já "clássico" e hoje um pouco esquecido como Bergson, Deleuze faz neste livro de 1966 uma monografia aparentemente despretensiosa. Aborda os grandes temas de Bergson: a intuição, a memória, a duração, o impulso vital. Mas o leitor se dá conta, desde logo, que está diante de um bergsonismo pouco comum, em todo caso nada espiritualista. A duração (nome dado por Bergson ao tempo) deixa de ser apenas uma experiência psicológica, para tornar-se um caso da duração ontológica, essência variável das coisas, condição da experiência. A memória, por sua vez, não é pensada como sendo interior a nós, nós é que somos interiores a uma gigantesca Memória, imemorial e ontológica, virtual e inconsciente. O impulso vital passa a designar o movimento pelo qual o ser se atualiza, não a partir de um "possível" ideal que o presente viria desovar, mas a partir de uma virtualidade (real) a ser desdobrada, diferenciada. A vida mesma é concebida como uma tal produção de diferenças - a vida é invenção.
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O animal que é colocado à força em um cativeiro reage agressivamente contra essa situação. Entretanto, quando ele está, de alguma forma, adaptado ao cativeiro, apenas come, bebe água, dorme muito. Nessa situação, o animal apenas sobrevive. Embora esteja livre das ameaças dos predadores, esse animal apresenta comportamentos muito diferentes dos que vivem livremente. Limitado pela arquitetura do cativeiro, a sua força não encontra a via suficiente para agir e modificar o ambiente. Enquanto sobrevive no cativeiro, ele não passa pelas experiências fundamentais de procurar o seu alimento, de voar, de enfrentar riscos, de fugir do que o amedronta, de explorar o seu ambiente, de inventar soluções para os problemas que sempre surgem no seu habitat. Com o passar do tempo, esse animal torna-se inevitavelmente entediado porque praticamente tudo que acontece no ambiente artificial em que habita é previsível - as condições em que vive impedem que o imprevisto surja como uma abertura para a sua ação. Em suma, o animal que vive no cativeiro é incapaz de criar um mundo próprio. As tentativas de introduzir nos cativeiros objetos que provocam um mínimo de imprevisto para estimular os sentidos do animal, de maneira que ele possa ter alguma ação, apenas funcionam como paliativos... Já o animal homem, escondido sob o invólucro da racionalidade, busca o confinamento voluntariamente. Ele sobrevive enclausurado no mundo artificial arquitetado para que a sua força seja continuamente impedida de vazar. No seu cotidiano, ele desloca-se de um cativeiro a outro, o que lhe dá uma aparência de “liberdade”: seja no transporte público, no seu local de trabalho, nos estabelecimentos de ensino ou na sua própria casa, a potência do seu corpo de criar as conexões com outros corpos é continuamente refreada. Tal como o animal que sobrevive no cativeiro, o homem experimenta, na maioria das vezes, uma violência contra o seu próprio corpo, realizada dentro dos espaços modernos de confinamento – violência que é autorizada por leis que visam o seu “bem-estar”. Assim é produzido um indivíduo covarde, resignado, inofensivo e, evidentemente, muito fácil de ser enganado. Diante dessa violência, é inevitável que o seu corpo passe a reagir através de vários sintomas que apontam para uma degradação acelerada. Uma vida assim exige respiro e alívio. Constituída por seres aprisionados que amam o poder, a máquina social que organiza os indivíduos dentro dos espaços de confinamento também oferece os paliativos necessários para combater o tédio que os assola, de modo a mantê-los distraídos antes que esses sofredores destruam o funcionamento do perverso sistema de reprodução de seres atrofiados. Consumidor voraz das quinquilharias reproduzidas sob medida para os doentes, o homem-confinado padece cada vez mais porque nem sequer pode imaginar que a criação de um mundo próprio corresponde à liberdade de efetuação da sua natureza – liberdade que se exprime em um corpo apto a fazer, na maioria das vezes, as coisas que somente lhe interessa; liberdade que se exprime em um indivíduo que ama o risco, que dá boas-vindas ao imprevisto, que cria as suas próprias condições de sobrevivência ao inventar os atalhos no mundo em que vive. Antes a ação do que a crença em uma ideologia... Pois somente enquanto vive, o homem é capaz de desprezar os engodos que servem para aliviar, de modo efêmero, o desespero dos confinados.

Tradução: Bárbara Ablas
O que fazer com a desilusão? O que fazer quando a democracia não funciona? O Brasil é um país muito especial para formular essa pergunta. Há apenas dois anos, a esquerda mundial festejou o triunfo de Lula nas eleições. Houve uma grande vitória para a democracia, uma vitória real para a esquerda . E não qualquer esquerda, mas um partido de militância comprovada, com um líder trabalhador de miltância comprovada. Aqui, finalmente, todo mundo podia ver que era possível mudar a sociedade através de eleições democráticas. E agora? Dois anos depois, desilusão total. A eleição de Lula não mudou o Brasil, o governo segue implementando as mesmas políticas do capitalismo neoliberal.
O que farão então com a desilusão? Escolher outro líder e esperar que seja melhor que Lula? Formar outro partido e esperar que seja melhor que o PT? Isto é o terrível dos governos de esquerda: quando fracassam (e sempre fracassam) parece que não há nenhuma solução e se instala a depressão. O fracasso de Lula não é simplesmente um fenômeno brasileiro. É a repetição, no Brasil, de uma experiência mundial. Há uma palavra que ocorre uma e outra vez na história da esquerda estadocêntrica em todo o mundo: traição. O fato da traição repetir-se tão seguidamente faz com que o conceito de “traição” se torne ridículo. O fracasso da esquerda não pode ser simplesmente questão de traição, da culpa de um líder nem de um partido: tem a ver com as mesmas estruturas. O fato de que não é apenas uma experiência brasileira significa que temos que ir mais além de uma crítica a Lula ou ao PT.
II
O problema não é Lula nem o PT, mas a democracia participativa. A democracia representativa não é nossa democracia, é a democracia deles, a democracia do capital. Não articula nosso poder, articula o poder deles, o poder do capital e dos poderosos. Nosso poder não é como o poder dos poderosos. É completamente distinto. Nosso poder é o poder-fazer, o poder criativo. Nosso poder-fazer é o poder de produzir e reproduzir a vida, porém, também o de fazer as coisas de outra maneira, o poder de mudar o mundo. Este é o poder que sentimos em um evento como este: uma confiança coletiva de que podemos fazer as coisas de outra maneira.
Nosso poder é coletivo e social. O fazer é o centro de nosso poder, e é impossível imaginar um fazer que não seja social, que não dependa dos fazeres de outros, no passado ou no presente. Nosso fazer é sempre parte de um fluxo social do fazer. O desenvolvimento de nosso poder sempre implica o reconhecimento explícito da sociedade do fazer, implica, em outras palavras, um movimento de reunir e afirmar uma subjetividade social, um nós criativo. O poder dos poderosos é todo o contrário. Por trás de suas armas e bombas há um movimento de separação e fragmentação. O capital é um movimento de separação que fragmenta a sociedade do fazer. O capital toma o que os fazedores fizeram e diz: “isto é meu!”. O capitalista rompe o fazer, separa o feito do fazer e do fazedor, e com isso tudo se rompe, cada aspecto da vida. A respeito de tudo estamos rotos. Nós estamos rotos como sujeito social, despedaçados em milhões de indivíduos atomizados. O capital é a ruptura do fazer social, e quando o fazer se rompe, o ser impõe-se, o que é domina. Vemos os horrores do mundo, as crianças que morrem, a pobreza e a injustiça, as bombas que caem, e gritamos “Não! Não pode ser. Temos que mudar o mundo, temos que fazer outro mundo” E eles riem: Vocês são nada mais que um grupo de indivíduos. Não podem mudar o mundo porque o mundo é assim, assim são as coisas”.
Estão evidentemente equivocados. O que é, somente é porque nós o fizemos e o seguimos fazendo. O que é depende de nosso nosso fazer. O capital depende de nós. O capital se vê estável e eterno. Porém, não é. Existe somente porque nós o criamos. Não porque o criamos há duzentos anos, mas porque o criamos hoje. O problema não é abolir o capitalismo, o problema é deixar de criá-lo. [...]
Leia mais em:
http://www.ainfos.ca/04/dec/ainfos00220.html
http://www.midiaindependente.org/pt/blue//2003/11/268075.shtml
Por Eder Amaral e Silva[1] & Morgana Barbosa Gomes[2]
Entre outras coisas, ouvimo-los dizer que o nosso texto trazia notadamente um discurso de resistência. Resistência à ordem do discurso acadêmico, porque feito em tintas de apelo literário, resistência à norma por não se alinhar a certa padronização da escrita universitária, resistência, em fim, ao instituído. E que optar por tal modo de expressão na seara acadêmica, devíamos saber, implicava em não ser ouvido, na medida em que a ordem do discurso determina o que pode e o que não pode surgir como discurso, o que pode ou não ser dito numa determinada circunstância, a um determinado público, por determinado sujeito, em determinado tempo. Ou entramos nessa ordem do discurso, ou então...
Está lá, na aula inaugural de Michel Foucault no Collège de France, esta importantíssima constatação. Logo após parafraseá-lo (como o fazemos aqui), o professor Nilton arrematou: “não sou eu quem diz isso, é o discurso, é Michel Foucault!”
Sabe quando se tem a sensação de ter ouvido um canto de sereia? Não foi o que ocorreu. Sem entrar em mais detalhes (quem os quiser saber não terá dificuldade, havia outras pessoas participando do “Simpósio III – Discurso, Literatura e Autoria”), atenhamo-nos aqui apenas à situação já descrita, alem de alguns tragicômicos desdobramentos.
Desde o início da apresentação soubemos que seria aquele nosso primeiro e último momento no evento do prof. Nilton (palavras e possessiva advindas do próprio). Dissera que aquilo que propúnhamos estava fora de ocasião, destoava da proposta do Encontro, e que não apareceria em suas próximas edições, palavra. “Isto que vocês apresentaram não tem lugar nesta sala, neste espaço!”. Para não incorrermos em injustiça, salientamos que o mesmo professor afirmou ter sido favorável à aprovação do nosso resumo, não obstante esta ter sido opinião rara entre os pareceristas, o que resultaria na recusa de nosso trabalho não fosse sua intervenção e assunção da responsabilidade pela avaliação. Foi só depois de uma extremada benevolência, de um devir-socrático, de uma salvação talvez, que o professor entendeu haver a necessidade de um acerto de contas... toc, toc, toc... A ordem do discurso bate à nossa porta, pedindo um pouco de voz:
E a instituição responde: “Você não tem por que temer começar; estamos todos aí para lhe mostrar que o discurso está na ordem das leis; que há muito tempo se cuida de sua aparição; que lhe foi preparado um lugar que o honra mas o desarma; e que, se lhe ocorre ter algum poder, é de nós, só de nós, que ele lhe advém”.[3]
Duas páginas à frente, Foucault interroga: “Mas, o que há, enfim, de tão perigoso no fato de as pessoas falarem e de seus discursos proliferarem indefinidamente? Onde, afinal, está o perigo?” É ele mesmo quem responde:
(...) suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade.[4]
Os trechos colados aqui são talvez os mais citados em trabalhos acadêmicos que fazem uso deste livreto. Se a quantidade de citações lhe garantisse compreensão, por certo Foucault (e Sade, e Nietzsche, e Heidegger, e tantos mais...) seria de domínio largo além dos círculos e catedrais.
Uma pesquisadora brasileira[5] dos estudos da cognição nos leva a pensar que dispomos de dois modos de subjetivação do conhecimento, aos quais ela define como “políticas cognitivas”. Por um lado, haveria a política cognitiva “realista”, sendo aquela que percebe o real como aquilo que está dado, desde sempre, e do qual apenas seleciona, coleta, assimila e faz circular informações, única matéria possível num tal regime cognitivo. Por outro, tem-se o que ela chama de política cognitiva “construtivista”, cuja característica fundamental é a de tomar o mundo como uma invenção, um engenho produzido na hora precisa em que atentamos para ele, em que agimos nele, o que implica inevitavelmente o problema ético do conhecimento.
A situação que vivenciamos no I ENEDIS nos remeteu imediatamente a este problema, porque nos vimos diante de uma nítida manifestação daquele tipo de “realismo”. Porque o problema não está em repetir constatações de um pensador a respeito da realidade que vivemos (e esse “viver” é necessariamente “criar”); o difícil é ver o desperdício da leitura que faz da afirmação crítica mera informação a ser armazenada no repertório técnico, mera unidade de informação; o que espanta é ver o que força os limites da norma ser convertido em regra a ser reproduzida ad eternum e por toda parte, como se estivesse diante de uma prescrição e não de uma análise.
Em função de quê é possível uma tal disposição ao uso de filosofias como a de Michel Foucault – um pensamento que tem por mote justamente a crítica aos poderes instituídos – para rebater o exercício do poder sobre o que quer que se manifeste à margem da ordem? Parodiando o cientista político Jacques Donzelot, seria necessário teorizarmos ainda sobre uma “Polícia do pensamento”?... toc, toc, toc... A ordem do discurso bate novamente à nossa porta, querendo fazer uma pergunta:
O que é afinal um sistema de ensino senão uma ritualização da palavra; senão uma qualificação dos papéis para os sujeitos que falam; senão a constituição de um grupo doutrinário ao menos difuso; senão uma distribuição e uma apropriação do discurso com seus poderes e seus saberes?[6]
Da forma que foi possível fazê-lo na ocasião, interpusemos o questionamento acima ao “parecer” que nos foi dado. Entre outras coisas (como, por exemplo, o alerta do outro professor/avaliador, ao fato de que Foucault não defendeu suas teses cantando nem declamando poemas...), surgiu como tréplica que estávamos “pulando o muro do vizinho para falar mal dele”, que ao nos apresentarmos daquele modo dentro de uma academia não podíamos nos furtar do lugar que ocupávamos na própria academia etc., etc... Sim, sim, tens razão, passemos a outra coisa, por gentileza, que essa cantilena já fala por conta própria de tão repetida! Para tranqüilizar quem se aterroriza, não queremos acabar com a academia, viveremos pouco, temos mais o que fazer (dentro dela inclusive). Só não temos esse estranho senso de pura pertença que transforma alguns em guardiães da ordem, incumbidos de controlar qualquer variação que surja ao seu redor para conservar o que já se alcançou, mesmo que seja pouco, mesmo que não seja. Pra quê exemplo maior da piedosa avareza que não cessamos de aprender, que não cessa de nos consumir?
Vai ficando difícil achar leitor com este tamanho de texto, que só quer expressar nossa gratidão pela receptividade. Pra não haver mais delongas, deixamos ao menos uma explicação, já que todo o resto dispensa: o título. Que papo é esse de “eles lêem Foucault como homem”? Quem tiver oportunidade e desejo, por prazer, leia um texto intitulado “A literatura e a vida”, de Gilles Deleuze[7]. Lá Deleuze tenta responder à questão do que faz valer a pena uma escrita... questão que responde, provocativamente, com outra pergunta: “A vergonha de ser um homem: haverá razão melhor para escrever?”. Esse “homem” de que Deleuze afirma se envergonhar não é outro senão a forma-Homem que nos atravessa, qualquer que seja nosso gênero (e se é que eles realmente existem), forma que planta o poder em nós, e nos faz querê-lo como se fosse o ar que respiramos. Dessa perspectiva, como entender que aquele que diz “Não se apaixonem pelo poder”[8] possa ser lido e posto em discurso como um homem? Não precisamos ir além dessa pergunta. Como dissemos no simpósio, fizemos aquela proposta como um jogo, não como uma missão de catequese; queríamos uma dança, não uma competição. Talvez Capoeira... Vale Tudo nunca!
De resto, convidamos Foucault e um seu parceiro saxão, que também não é homem (porque está para além dele, em qualquer sentido) para, agora sim, fazer uma prescrição: “Utilize a prática política como um intensificador do pensamento e a análise como um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.”[9] Quanto a Nietzsche, trazemos um ensinamento que permeia seu trabalho, que faz da vida obra de arte (e não a deixa se tornar um trapo): é preciso muito amor para se fazer uma crítica. Eis aqui nosso exercício de amor (sem objeto e sem objetivo, mas nunca gratuito), ainda que cruel, como foi dito. Se chamamos filósofos ao texto é sempre para conversarmos, até falarmos juntos, ao mesmo tempo, sem muita educação. Não para abduzir nossa própria voz em função de petições de autoridade. Pois é justamente em Foucault que encontramos motivo para pensá-lo como amigo, produzir com ele uma política da amizade, e arriscar, sempre no limite do que agüentamos, sem ressentimento. Com efeito, “somos ainda demasiado competentes, e gostaríamos de falar em nome de uma incompetência absoluta”[10]. É que no Zaratustra gostamos mais da última figura da transmutação – a criança, demasiado inocente, jamais ingênua – do que da primeira – o carregador de fardos. Deste texto esperamos só uma coisa: que se dele surgir qualquer efeito, seja mais assunto de conversa que questão de julgamento.
Estou escrevendo versos realmente simpáticos –
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim![11]
Vitória da Conquista, 1º de dezembro de 2008
[1] E-mail: eder_as@yahoo.com.br
[2] E-mail: morganabg1@yahoo.com.br
[3] Michel Foucault. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996. p. 7. (Grifo nosso)
[4] Idem, p. 8-9. (Grifo nosso)
[5] Virgínia Kastrup. A invenção de si e do mundo: uma introdução do tempo e do coletivo nos estudos da cognição. Campinas: Papirus, 1999.
[6] Michel Foucault. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996. p. 44-5. (Grifos nossos)
[7] O texto faz parte da coletânea de textos de Deleuze chamada Crítica e Clínica, publicada no Brasil pela Editora 34. O texto também está disponível na internet e pode ser facilmente encontrado.
[8] Michel Foucault. Anti-Édipo: Uma introdução à vida não fascista. Cadernos de Subjetividade / Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP. – v. 1, n. 1 (1993) – São Paulo, 1993 [páginas 197 a 200].
[9] Idem, Ibidem. (Grifo nosso)
[10] Gilles Deleuze & Félix Guattari. O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia 1.Lisboa, Portugal: Assírio & Alvim, 2004. p. 399.
[11] Fernando Pessoa. Insônia. In: Poesia Completa de Álvaro de Campos. São Paulo: Cia. das letras, 2007. p. 325
Este seminário sobre “as esquizoanálises” não encontrará seu próprio regime a menos que ele mesmo se ponha a funcionar em um nível que eu qualificaria de “meta-modelização”. Dito de outra forma, se ele nos permitir cercar melhor nossos próprios agenciamentos de enunciação – seria melhor dizer: os agenciamentos de enunciação aos quais estamos adjacentes. Neste sentido, faço questão de repetir que nunca concebi a esquizoanálise como uma nova especialidade, que seria chamada a colocar-se nas fileiras do domínio psi. Em minha opinião, suas ambições deveriam ser, ao mesmo tempo, mais modestas e maiores. Modestas porque, se ela deverá existir um dia, é porque já existe um pouco por toda parte, de maneira embrionária, sob diversas modalidades; no entanto, ela não tem nenhuma necessidade de uma fundação institucional dentro da boa e velha regra. Maiores, na medida em que a esquizoanálise tem, do meu ponto de vista, uma vocação para tornar-se uma disciplina de leitura de outros sistemas de modelização. Não a título de modelo geral, mas como instrumento de deciframento de pragmáticas de modelização em diversos domínios. Poder-se-ia objetar que o limite entre um modelo e um meta-modelo não se apresenta sempre como uma fronteira estável. E que, em certo sentido, a subjetividade é sempre mais ou menos atividade de meta-modelização (na perspectiva proposta aqui: transferência de modelização, passagens transversais entre máquinas abstratas e territórios existenciais). O essencial torna-se então efetuar um deslocamento do acento analítico que consiste em fazê-la derivar de sistemas de enunciado e de estruturas subjetivas pré-formadas para agenciamentos de enunciação capazes de forjar novas coordenadas de leitura e de “pôr em existência” representações e proposições inéditas.
A esquizoanálise será, portanto, essencialmente excêntrica em relação às práticas psi profissionalizadas, com suas corporações, sociedades, escolas, iniciações didáticas, “passe”, etc. Sua definição provisória poderia ser: a análise da incidência dos agenciamentos de enunciação sobre as produções semióticas e subjetivas, em um contexto problemático dado. Eu voltarei a essas noções de “contexto problemático”, de cena e de “posto em existência”. Por enquanto, me limito a mostrar que eles podem referir-se a coisas tão diversas como um quadro clínico, um fantasma inconsciente, uma fantasia diurna, uma produção estética, um fato micropolítico... O que conta aqui é a idéia de um agenciamento de enunciação e de uma circunscrição existencial, que implica o desenvolvimento de referências intrínsecas, ou seja, de um processo de auto-organização ou de singularização.
Clique aqui para ler o texto completo, publicado na Revista Ensaios (Universidade Federal Fluminense), n.1, v.1, ano 1, 2° sem. 2008.
Tomo como ponto de parti-da uma frase algo enigmática enunciada por Freud ao finalizar sua Conferência XXXI (Novas conferências introdutórias) que, em suas múltiplas possibilidades de tradução, me convida a pensar direções para os impasses que o trabalho com a subjetividade tem colocado neste presente tomado por um furor higienista, classificador, objetivante e tipicamente novecentista que, penso, deveria estar já superado pelas lutas e questionamentos que marcaram o século XX: Wo Es war, soll Ich werden.