sábado, 4 de abril de 2009

Palestra de Antonio Moura - 18.04.2009, 16h, Casa da Rede de Atenção



A palestra foi gravada em vídeo e áudio e será disponibilizada brevemente nesta página.

Projeto Existências-Resistências / Exposição de Rogério Ferrari na Letras&Prosa


Palestina... Turquia... Chiapas... Um homem, uma câmera, um corpo vibrátil... Rogério Ferrari [Ipiaú, BA], fotógrafo, perambula pelo mundo com sua câmera, instala-se na pulsação dos territórios, re-a[fe]tiva seu devir etnógrafo e constrói sensíveis cartografias de povos que dizem NÃO!

CURDOS – UMA NAÇÃO ESQUECIDA Quando chegou a Turquia, no inverno de 2002, mais precisamente em novembro, com o objetivo de conhecer a realidade do povo curdo, o fotógrafo Rogério Ferrari vinha de uma experiência que o havia marcado profundamente: estivera na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, Palestina, onde registrou o cotidiano e a resistência dos palestinos frente a ocupação israelense, vivência que resultou no livro Palestina, a eloqüência do sangue, lançado em 2004 no Brasil e, recentemente, em novo livro, Palestine, lançado na França. Diferentemente do conflito no Oriente Médio, que acontece sob os holofotes da midia, a questão curda mostrou-se muito mais complexa. Isso porque a repressão sofrida por aquele povo ao longo das últimas dez décadas foi simplesmente deixada de lado pela comunidade internacional, que fechou os olhos diante das atrocidades praticadas pela Turquia contra os curdos: direitos civis violados, inclusive o de falar a própria língua, exterminio, cidades destruídas, prisões, torturas ilustram o grau de repressão cometida contra os curdos. No entanto, ao contrário do registro do conflito no Oriente Médio, onde o seu raio de ação se deu, inclusive, entre fogo-cruzado, em Diyarbakir, capital curda na Turquia, Ferrari viu-se limitado pelo controle da polícia turca, o que o obrigou a fotografar de forma mais “intimista” a realidade local. No final, o trabalho ganhou um caráter diferenciado, pois a aproximação e o conhecimento das tragédias e dos sofrimentos de muitas famílias resultaram em imagens reveladoras do estado de espírito de um povo. O resultado encontra-se em CURDOS – UMA NAÇÃO ESQUECIDA, livro através do qual a expressão de um povo é retratada em preto e branco, dando ao observador a percepção do sofrimento e humilhação de milhões de pessoas, mas, também, a visão da integridade de um povo que não abdica do direito de existir com dignidade. O livro, impresso em setembro de 2007, tem 112 páginas, é uma produção independente composta por 45 fotografias, depoimentos, textos e mapa. Foi traduzido para o francês, italiano e curdo. O lançamento, na Aliança Francesa, foi acompanhado de uma exposição fotográfica, composta por 15 fotos em preto e branco. Em março o livro foi lançado em Paris, e, em maio, chegou ao Curdistão, onde foi entregue às pessoas que dele participaram e que se deixaram fotografar. Neste final de semana o lançamento se dá em Vitória da Conquisa, na Livraria Letras&Prosa.
Sobre o Fotógrafo: Rogério Ferrari desenvolve de forma autônoma o Projeto Existências-Resistências, uma documentação fotográfica sobre a realidade e a luta de povos e movimentos que lutam por terra e pelo direito básico de existir com dignidade: palestinos, curdos, zapatistas, sem-terra no Brasil, e, mais recentemente, o povo do Sahara Ocidental, refugiado no deserto do Sahara, na Argélia, e nos territórios ocupados pelo Marrocos. Procura, através de Existências-Resistências, afirmar e reposicionar a noção de resistência de maneira que, mais do que opor-se, resistir signifique existir, afirmar a vida sobre a morte. Assim, mostrou os palestinos que, vivendo há mais de cinquenta anos sob ocupação, mesmo com a vigência cotidiana da dor, sustentam a ternura, o desejo e a luta por liberdade; os sem terra no Brasil, que, ao lutar pela superação da fome e da miséria, expõem um lado do país que não cessa de fragmentar nossa busca por uma identidade digna; rompeu a absoluta desinformação sobre os curdos que historicamente têm sido banidos do direito de existir enquanto uma nação com pátria; viu nos Zapatistas, no México, o quanto um povo subestimado pode determinar novas práticas políticas, sustentando-as numa referência cultural própria; e, no povo do Sahara Ocidental, habitando em campos de refugiados numa das regiões mais inóspitas do mundo, e sob ostensiva e cruel repressão do governo marroquino, a vigência do valor da simplicidade e de uma sociedade pautada no valor do ser e não do ter.
O fotógrafo, nascido em Ipiaú, Bahia, lançou em outubro passado, na França, o livro Palestine, primeiro título da coleção intitulada Existance-Resistence, que incluirá os demais registros que compõem o Projeto Existências-Resistências. Formado em Antropologia pela Universidade Federal da Bahia, trabalhou em revistas como Carta Capital, Veja, Áccion e Reuters. Seu trabalho é independente e, sem muito dinheiro para bancar suas viagens, costuma hospedar-se na casa de pessoas dos lugares que visita, tendo assim melhores condições para vivenciar e retratar a árdua e difícil vida dos povos que ainda lutam por um pedaço de terra ou pelo reconhecimento de sua nação. Distanciado de uma postura panfletária ou de clichês, defende a necessidade de que o artista, o gari, quem seja, não negligencie, não tergiverse e atue além das retóricas diante das injustiças e do cinismo de uma sociedade burguesa e decadente. Aconteçam elas nos Curdistão ou nas ruas de Salvador.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Deleuze tirou a poeira das idéias de Bergson, por Peter Pál Pelbart


No início dos anos 70, em resposta a um amigo que o acusava de estar filosoficamente acuado, o pensador Gilles Deleuze escreveu: "Sou de uma geração, uma das últimas gerações que foram mais ou menos assassinadas com a história da filosofia. A história da filosofia exerce em filosofia uma função repressora evidente... Você não vai se atrever a falar em seu nome enquanto não tiver lido isto e aquilo, e aquilo sobre isto, e isto sobre aquilo. Na minha geração muitos não escaparam disso, outros sim, inventando seus próprios métodos e novas regras, um novo tom. Quanto a mim, "fiz" por muito tempo história da filosofia... Mas eu me compensava de várias maneiras. Primeiro, gostando dos autores que se opunham à tradição racionalista dessa história (e entre Lucrécio, Hume, Espinosa, Nietzsche, há para mim um vínculo secreto constituído pela crítica do negativo, pela cultura da alegria, o ódio à interioridade, a exterioridade das forças e das relações, a denúncia do poder... etc.). O que eu mais detestava era o hegelianismo e a dialética..."


Em seguida, Deleuze explica como conseguiu safar-se desse impasse: a partir dos autores comentados, produzia leituras insólitas, filhos ligeiramente "monstruosos": "O autor precisava efetivamente ter dito tudo aquilo que eu lhe fazia dizer. Mas que o filho fosse monstruoso também representava uma necessidade, porque era preciso passar por toda espécie de descentramentos, deslizes, quebras, emissões secretas que me deram muito prazer. Meu livro sobre Bergson me parece exemplar nesse gênero." (`Carta a um crítico severo', em "Conversações").


O livro sobre Bergson a que o autor se refere em sua carta sai agora em português pela Editora 34 com o título de "Bergsonismo", na fina e esmerada tradução de Luiz Orlandi. Ao debruçar-se sobre um filósofo já "clássico" e hoje um pouco esquecido como Bergson, Deleuze faz neste livro de 1966 uma monografia aparentemente despretensiosa. Aborda os grandes temas de Bergson: a intuição, a memória, a duração, o impulso vital. Mas o leitor se dá conta, desde logo, que está diante de um bergsonismo pouco comum, em todo caso nada espiritualista. A duração (nome dado por Bergson ao tempo) deixa de ser apenas uma experiência psicológica, para tornar-se um caso da duração ontológica, essência variável das coisas, condição da experiência. A memória, por sua vez, não é pensada como sendo interior a nós, nós é que somos interiores a uma gigantesca Memória, imemorial e ontológica, virtual e inconsciente. O impulso vital passa a designar o movimento pelo qual o ser se atualiza, não a partir de um "possível" ideal que o presente viria desovar, mas a partir de uma virtualidade (real) a ser desdobrada, diferenciada. A vida mesma é concebida como uma tal produção de diferenças - a vida é invenção.


Clique aqui para ler o artigo completo.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Confinamento, por Amauri Ferreira

O animal que é colocado à força em um cativeiro reage agressivamente contra essa situação. Entretanto, quando ele está, de alguma forma, adaptado ao cativeiro, apenas come, bebe água, dorme muito. Nessa situação, o animal apenas sobrevive. Embora esteja livre das ameaças dos predadores, esse animal apresenta comportamentos muito diferentes dos que vivem livremente. Limitado pela arquitetura do cativeiro, a sua força não encontra a via suficiente para agir e modificar o ambiente. Enquanto sobrevive no cativeiro, ele não passa pelas experiências fundamentais de procurar o seu alimento, de voar, de enfrentar riscos, de fugir do que o amedronta, de explorar o seu ambiente, de inventar soluções para os problemas que sempre surgem no seu habitat. Com o passar do tempo, esse animal torna-se inevitavelmente entediado porque praticamente tudo que acontece no ambiente artificial em que habita é previsível - as condições em que vive impedem que o imprevisto surja como uma abertura para a sua ação. Em suma, o animal que vive no cativeiro é incapaz de criar um mundo próprio. As tentativas de introduzir nos cativeiros objetos que provocam um mínimo de imprevisto para estimular os sentidos do animal, de maneira que ele possa ter alguma ação, apenas funcionam como paliativos... Já o animal homem, escondido sob o invólucro da racionalidade, busca o confinamento voluntariamente. Ele sobrevive enclausurado no mundo artificial arquitetado para que a sua força seja continuamente impedida de vazar. No seu cotidiano, ele desloca-se de um cativeiro a outro, o que lhe dá uma aparência de “liberdade”: seja no transporte público, no seu local de trabalho, nos estabelecimentos de ensino ou na sua própria casa, a potência do seu corpo de criar as conexões com outros corpos é continuamente refreada. Tal como o animal que sobrevive no cativeiro, o homem experimenta, na maioria das vezes, uma violência contra o seu próprio corpo, realizada dentro dos espaços modernos de confinamento – violência que é autorizada por leis que visam o seu “bem-estar”. Assim é produzido um indivíduo covarde, resignado, inofensivo e, evidentemente, muito fácil de ser enganado. Diante dessa violência, é inevitável que o seu corpo passe a reagir através de vários sintomas que apontam para uma degradação acelerada. Uma vida assim exige respiro e alívio. Constituída por seres aprisionados que amam o poder, a máquina social que organiza os indivíduos dentro dos espaços de confinamento também oferece os paliativos necessários para combater o tédio que os assola, de modo a mantê-los distraídos antes que esses sofredores destruam o funcionamento do perverso sistema de reprodução de seres atrofiados. Consumidor voraz das quinquilharias reproduzidas sob medida para os doentes, o homem-confinado padece cada vez mais porque nem sequer pode imaginar que a criação de um mundo próprio corresponde à liberdade de efetuação da sua natureza – liberdade que se exprime em um corpo apto a fazer, na maioria das vezes, as coisas que somente lhe interessa; liberdade que se exprime em um indivíduo que ama o risco, que dá boas-vindas ao imprevisto, que cria as suas próprias condições de sobrevivência ao inventar os atalhos no mundo em que vive. Antes a ação do que a crença em uma ideologia... Pois somente enquanto vive, o homem é capaz de desprezar os engodos que servem para aliviar, de modo efêmero, o desespero dos confinados. 

Leia outros escritos em http://amauriferreira.blogspot.com

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Conferência de John Holloway: “a esquerda sempre fracassará, enquanto não superar a democracia representativa"


"O problema não é Lula nem o PT, mas a democracia participativa. A democracia representativa não é nossa democracia, é a democracia deles, a democracia do capital. Não articula nosso poder, articula o poder deles, o poder do capital e dos poderosos. Nosso poder não é como o poder dos poderosos. É completamente distinto. Nosso poder é o poder-fazer, o poder criativo. Nosso poder-fazer é o poder de produzir e reproduzir a vida, porém, também o de fazer as coisas de outra maneira, o poder de mudar o mundo".


Tradução: Bárbara Ablas


O que fazer com a desilusão? O que fazer quando a democracia não funciona? O Brasil é um país muito especial para formular essa pergunta. Há apenas dois anos, a esquerda mundial festejou o triunfo de Lula nas eleições. Houve uma grande vitória para a democracia, uma vitória real para a esquerda . E não qualquer esquerda, mas um partido de militância comprovada, com um líder trabalhador de miltância comprovada. Aqui, finalmente, todo mundo podia ver que era possível mudar a sociedade através de eleições democráticas. E agora? Dois anos depois, desilusão total. A eleição de Lula não mudou o Brasil, o governo segue implementando as mesmas políticas do capitalismo neoliberal.

O que farão então com a desilusão? Escolher outro líder e esperar que seja  melhor que Lula? Formar outro partido e esperar que seja melhor que o PT? Isto é o terrível dos governos de esquerda: quando fracassam (e sempre fracassam) parece que não há nenhuma solução e se instala a depressão. O fracasso de Lula não é simplesmente um fenômeno brasileiro. É a repetição, no Brasil, de uma experiência mundial. Há uma palavra que ocorre uma e outra vez na história da esquerda estadocêntrica em todo o mundo: traição. O fato da traição repetir-se tão seguidamente faz com que o conceito de “traição” se torne ridículo. O fracasso da esquerda não pode ser simplesmente questão de traição, da culpa de um líder nem de um partido: tem a ver com as mesmas estruturas. O fato de que não é apenas uma experiência brasileira significa que temos que ir mais além de uma crítica a Lula ou ao PT.

II

O problema não é Lula nem o PT, mas a democracia participativa. A democracia representativa não é nossa democracia, é a democracia deles, a democracia do capital. Não articula nosso poder, articula o poder deles, o poder do capital e dos poderosos. Nosso poder não é como o poder dos poderosos. É completamente distinto. Nosso poder é o poder-fazer, o poder criativo. Nosso poder-fazer é o poder de produzir e reproduzir a vida, porém, também o de fazer as coisas de outra maneira, o poder de mudar o mundo. Este é o poder que sentimos em um evento como este: uma confiança coletiva de que podemos fazer as coisas de outra maneira.

Nosso poder é coletivo e social. O fazer é o centro de nosso poder, e é impossível imaginar um fazer que não seja social, que não dependa dos fazeres de outros, no passado ou no presente. Nosso fazer é sempre parte de um fluxo social do fazer. O desenvolvimento de nosso poder sempre implica o reconhecimento explícito da sociedade do fazer, implica, em outras palavras, um movimento de reunir e afirmar uma subjetividade social, um nós criativo. O poder dos poderosos é todo o contrário. Por trás de suas armas e bombas há um movimento de separação e fragmentação. O capital é um movimento de separação que fragmenta a sociedade do fazer. O capital toma o que os fazedores fizeram e diz: “isto é meu!”. O capitalista rompe o fazer, separa o feito do fazer e do fazedor, e com isso tudo se rompe, cada aspecto da vida. A respeito de tudo estamos rotos. Nós estamos rotos como sujeito social, despedaçados em milhões de indivíduos atomizados. O capital é a ruptura do fazer social, e quando o fazer se rompe, o ser impõe-se, o que é domina. Vemos os horrores do mundo, as crianças que morrem, a pobreza e a injustiça, as bombas que caem, e gritamos “Não! Não pode ser. Temos que mudar o mundo, temos que fazer outro mundo” E eles riem: Vocês são nada mais que um grupo de indivíduos. Não podem mudar o mundo porque o mundo é assim, assim são as coisas”.

Estão evidentemente equivocados. O que é, somente é porque nós o fizemos e o seguimos fazendo. O que é depende de nosso nosso fazer. O capital depende de nós. O capital se vê estável e eterno. Porém, não é. Existe somente porque nós o criamos. Não porque o criamos há duzentos anos, mas porque o criamos hoje. O problema não é abolir o capitalismo, o problema é deixar de criá-lo. [...]

Leia mais em:

http://www.ainfos.ca/04/dec/ainfos00220.html 

Mais sobre Holloway:

http://www.midiaindependente.org/pt/blue//2003/11/268075.shtml

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

... eles lêem Foucault como homem...




Por Eder Amaral e Silva[1] & Morgana Barbosa Gomes[2]


Semana passada, na UESB, um evento se tornou para nós acontecimento. O I ENEDIS – Encontro de Estudos sobre o Discurso, do qual participamos apresentando o estranho trabalho intitulado “Das dicotomias feitas pó: estética da existência, devir, subjetividade” nos levou além das expectativas mais improváveis em relação a como uma coisa se torna o que ela é.
Ainda aqui, uma vez mais, falamos por códigos. Podemos ser mais simples. Sejamos: ocaso (sic) ocorreu no simpósio em que apresentamos o trabalho citado, numa comunicação oral de breves quinze minutos. Encerramos o ciclo de apresentações da manhã de 28 de novembro por volta de 12h15min. Daí em diante, teve início a série de pareceres dos dois professores presentes, Nilton Milanez e um colega seu (do qual não nos lembramos o nome), então responsáveis pelo simpósio. O curioso da estória é a transformação do parecer em julgamento no exato instante em que ambos os professores iniciam sua fala a respeito do nosso trabalho e da nossa apresentação, na qual experimentamos (e ainda com muita timidez) uma performance poética como condutora da proposta.

Entre outras coisas, ouvimo-los dizer que o nosso texto trazia notadamente um discurso de resistência. Resistência à ordem do discurso acadêmico, porque feito em tintas de apelo literário, resistência à norma por não se alinhar a certa padronização da escrita universitária, resistência, em fim, ao instituído. E que optar por tal modo de expressão na seara acadêmica, devíamos saber, implicava em não ser ouvido, na medida em que a ordem do discurso determina o que pode e o que não pode surgir como discurso, o que pode ou não ser dito numa determinada circunstância, a um determinado público, por determinado sujeito, em determinado tempo. Ou entramos nessa ordem do discurso, ou então...
Está lá, na aula inaugural de Michel Foucault no Collège de France, esta importantíssima constatação. Logo após parafraseá-lo (como o fazemos aqui), o professor Nilton arrematou: “não sou eu quem diz isso, é o discurso, é Michel Foucault!”
Sabe quando se tem a sensação de ter ouvido um canto de sereia? Não foi o que ocorreu. Sem entrar em mais detalhes (quem os quiser saber não terá dificuldade, havia outras pessoas participando do “Simpósio III – Discurso, Literatura e Autoria”), atenhamo-nos aqui apenas à situação já descrita, alem de alguns tragicômicos desdobramentos.
Desde o início da apresentação soubemos que seria aquele nosso primeiro e último momento no evento do prof. Nilton (palavras e possessiva advindas do próprio). Dissera que aquilo que propúnhamos estava fora de ocasião, destoava da proposta do Encontro, e que não apareceria em suas próximas edições, palavra. “Isto que vocês apresentaram não tem lugar nesta sala, neste espaço!”. Para não incorrermos em injustiça, salientamos que o mesmo professor afirmou ter sido favorável à aprovação do nosso resumo, não obstante esta ter sido opinião rara entre os pareceristas, o que resultaria na recusa de nosso trabalho não fosse sua intervenção e assunção da responsabilidade pela avaliação. Foi só depois de uma extremada benevolência, de um devir-socrático, de uma salvação talvez, que o professor entendeu haver a necessidade de um acerto de contas... toc, toc, toc... A ordem do discurso bate à nossa porta, pedindo um pouco de voz:
E a instituição responde: “Você não tem por que temer começar; estamos todos aí para lhe mostrar que o discurso está na ordem das leis; que há muito tempo se cuida de sua aparição; que lhe foi preparado um lugar que o honra mas o desarma; e que, se lhe ocorre ter algum poder, é de nós, só de nós, que ele lhe advém”.[3]
Duas páginas à frente, Foucault interroga: “Mas, o que há, enfim, de tão perigoso no fato de as pessoas falarem e de seus discursos proliferarem indefinidamente? Onde, afinal, está o perigo?” É ele mesmo quem responde:
(...) suponho que em toda sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que têm por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada e temível materialidade.[4]
Os trechos colados aqui são talvez os mais citados em trabalhos acadêmicos que fazem uso deste livreto. Se a quantidade de citações lhe garantisse compreensão, por certo Foucault (e Sade, e Nietzsche, e Heidegger, e tantos mais...) seria de domínio largo além dos círculos e catedrais.
Uma pesquisadora brasileira[5] dos estudos da cognição nos leva a pensar que dispomos de dois modos de subjetivação do conhecimento, aos quais ela define como “políticas cognitivas”. Por um lado, haveria a política cognitiva “realista”, sendo aquela que percebe o real como aquilo que está dado, desde sempre, e do qual apenas seleciona, coleta, assimila e faz circular informações, única matéria possível num tal regime cognitivo. Por outro, tem-se o que ela chama de política cognitiva “construtivista”, cuja característica fundamental é a de tomar o mundo como uma invenção, um engenho produzido na hora precisa em que atentamos para ele, em que agimos nele, o que implica inevitavelmente o problema ético do conhecimento.
A situação que vivenciamos no I ENEDIS nos remeteu imediatamente a este problema, porque nos vimos diante de uma nítida manifestação daquele tipo de “realismo”. Porque o problema não está em repetir constatações de um pensador a respeito da realidade que vivemos (e esse “viver” é necessariamente “criar”); o difícil é ver o desperdício da leitura que faz da afirmação crítica mera informação a ser armazenada no repertório técnico, mera unidade de informação; o que espanta é ver o que força os limites da norma ser convertido em regra a ser reproduzida ad eternum e por toda parte, como se estivesse diante de uma prescrição e não de uma análise.
Em função de quê é possível uma tal disposição ao uso de filosofias como a de Michel Foucault – um pensamento que tem por mote justamente a crítica aos poderes instituídos – para rebater o exercício do poder sobre o que quer que se manifeste à margem da ordem? Parodiando o cientista político Jacques Donzelot, seria necessário teorizarmos ainda sobre uma “Polícia do pensamento”?... toc, toc, toc... A ordem do discurso bate novamente à nossa porta, querendo fazer uma pergunta:
O que é afinal um sistema de ensino senão uma ritualização da palavra; senão uma qualificação dos papéis para os sujeitos que falam; senão a constituição de um grupo doutrinário ao menos difuso; senão uma distribuição e uma apropriação do discurso com seus poderes e seus saberes?[6]
Da forma que foi possível fazê-lo na ocasião, interpusemos o questionamento acima ao “parecer” que nos foi dado. Entre outras coisas (como, por exemplo, o alerta do outro professor/avaliador, ao fato de que Foucault não defendeu suas teses cantando nem declamando poemas...), surgiu como tréplica que estávamos “pulando o muro do vizinho para falar mal dele”, que ao nos apresentarmos daquele modo dentro de uma academia não podíamos nos furtar do lugar que ocupávamos na própria academia etc., etc... Sim, sim, tens razão, passemos a outra coisa, por gentileza, que essa cantilena já fala por conta própria de tão repetida! Para tranqüilizar quem se aterroriza, não queremos acabar com a academia, viveremos pouco, temos mais o que fazer (dentro dela inclusive). Só não temos esse estranho senso de pura pertença que transforma alguns em guardiães da ordem, incumbidos de controlar qualquer variação que surja ao seu redor para conservar o que já se alcançou, mesmo que seja pouco, mesmo que não seja. Pra quê exemplo maior da piedosa avareza que não cessamos de aprender, que não cessa de nos consumir?
Vai ficando difícil achar leitor com este tamanho de texto, que só quer expressar nossa gratidão pela receptividade. Pra não haver mais delongas, deixamos ao menos uma explicação, já que todo o resto dispensa: o título. Que papo é esse de “eles lêem Foucault como homem”? Quem tiver oportunidade e desejo, por prazer, leia um texto intitulado “A literatura e a vida”, de Gilles Deleuze[7]. Lá Deleuze tenta responder à questão do que faz valer a pena uma escrita... questão que responde, provocativamente, com outra pergunta: “A vergonha de ser um homem: haverá razão melhor para escrever?”. Esse “homem” de que Deleuze afirma se envergonhar não é outro senão a forma-Homem que nos atravessa, qualquer que seja nosso gênero (e se é que eles realmente existem), forma que planta o poder em nós, e nos faz querê-lo como se fosse o ar que respiramos. Dessa perspectiva, como entender que aquele que diz “Não se apaixonem pelo poder”[8] possa ser lido e posto em discurso como um homem? Não precisamos ir além dessa pergunta. Como dissemos no simpósio, fizemos aquela proposta como um jogo, não como uma missão de catequese; queríamos uma dança, não uma competição. Talvez Capoeira... Vale Tudo nunca!
De resto, convidamos Foucault e um seu parceiro saxão, que também não é homem (porque está para além dele, em qualquer sentido) para, agora sim, fazer uma prescrição: “Utilize a prática política como um intensificador do pensamento e a análise como um multiplicador das formas e dos domínios de intervenção da ação política.”[9] Quanto a Nietzsche, trazemos um ensinamento que permeia seu trabalho, que faz da vida obra de arte (e não a deixa se tornar um trapo): é preciso muito amor para se fazer uma crítica. Eis aqui nosso exercício de amor (sem objeto e sem objetivo, mas nunca gratuito), ainda que cruel, como foi dito. Se chamamos filósofos ao texto é sempre para conversarmos, até falarmos juntos, ao mesmo tempo, sem muita educação. Não para abduzir nossa própria voz em função de petições de autoridade. Pois é justamente em Foucault que encontramos motivo para pensá-lo como amigo, produzir com ele uma política da amizade, e arriscar, sempre no limite do que agüentamos, sem ressentimento. Com efeito, “somos ainda demasiado competentes, e gostaríamos de falar em nome de uma incompetência absoluta”[10]. É que no Zaratustra gostamos mais da última figura da transmutação – a criança, demasiado inocente, jamais ingênua – do que da primeira – o carregador de fardos. Deste texto esperamos só uma coisa: que se dele surgir qualquer efeito, seja mais assunto de conversa que questão de julgamento.
Estou escrevendo versos realmente simpáticos –
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim![11]

Vitória da Conquista, 1º de dezembro de 2008

[1] E-mail: eder_as@yahoo.com.br
[2] E-mail: morganabg1@yahoo.com.br
[3] Michel Foucault. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996. p. 7. (Grifo nosso)
[4] Idem, p. 8-9. (Grifo nosso)
[5] Virgínia Kastrup. A invenção de si e do mundo: uma introdução do tempo e do coletivo nos estudos da cognição. Campinas: Papirus, 1999.
[6] Michel Foucault. A ordem do discurso. São Paulo: Loyola, 1996. p. 44-5. (Grifos nossos)
[7] O texto faz parte da coletânea de textos de Deleuze chamada Crítica e Clínica, publicada no Brasil pela Editora 34. O texto também está disponível na internet e pode ser facilmente encontrado.
[8] Michel Foucault. Anti-Édipo: Uma introdução à vida não fascista. Cadernos de Subjetividade / Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC-SP. – v. 1, n. 1 (1993) – São Paulo, 1993 [páginas 197 a 200].
[9] Idem, Ibidem. (Grifo nosso)
[10] Gilles Deleuze & Félix Guattari. O Anti-Édipo. Capitalismo e Esquizofrenia 1.Lisboa, Portugal: Assírio & Alvim, 2004. p. 399.
[11] Fernando Pessoa. Insônia. In: Poesia Completa de Álvaro de Campos. São Paulo: Cia. das letras, 2007. p. 325


As Esquizoanálises


por Félix Guattari
Tradução Nedelka Solís Palma & Eder Amaral e Silva
Revisão técnica Valter A. Rodrigues


(...)

Este seminário sobre “as esquizoanálises” não encontrará seu próprio regime a menos que ele mesmo se ponha a funcionar em um nível que eu qualificaria de “meta-modelização”. Dito de outra forma, se ele nos permitir cercar melhor nossos próprios agenciamentos de enunciação – seria melhor dizer: os agenciamentos de enunciação aos quais estamos adjacentes. Neste sentido, faço questão de repetir que nunca concebi a esquizoanálise como uma nova especialidade, que seria chamada a colocar-se nas fileiras do domínio psi. Em minha opinião, suas ambições deveriam ser, ao mesmo tempo, mais modestas e maiores. Modestas porque, se ela deverá existir um dia, é porque já existe um pouco por toda parte, de maneira embrionária, sob diversas modalidades; no entanto, ela não tem nenhuma necessidade de uma fundação institucional dentro da boa e velha regra. Maiores, na medida em que a esquizoanálise tem, do meu ponto de vista, uma vocação para tornar-se uma disciplina de leitura de outros sistemas de modelização. Não a título de modelo geral, mas como instrumento de deciframento de pragmáticas de modelização em diversos domínios. Poder-se-ia objetar que o limite entre um modelo e um meta-modelo não se apresenta sempre como uma fronteira estável. E que, em certo sentido, a subjetividade é sempre mais ou menos atividade de meta-modelização (na perspectiva proposta aqui: transferência de modelização, passagens transversais entre máquinas abstratas e territórios existenciais). O essencial torna-se então efetuar um deslocamento do acento analítico que consiste em fazê-la derivar de sistemas de enunciado e de estruturas subjetivas pré-formadas para agenciamentos de enunciação capazes de forjar novas coordenadas de leitura e de “pôr em existência” representações e proposições inéditas.

A esquizoanálise será, portanto, essencialmente excêntrica em relação às práticas psi profissionalizadas, com suas corporações, sociedades, escolas, iniciações didáticas, “passe”, etc. Sua definição provisória poderia ser: a análise da incidência dos agenciamentos de enunciação sobre as produções semióticas e subjetivas, em um contexto problemático dado. Eu voltarei a essas noções de “contexto problemático”, de cena e de “posto em existência”. Por enquanto, me limito a mostrar que eles podem referir-se a coisas tão diversas como um quadro clínico, um fantasma inconsciente, uma fantasia diurna, uma produção estética, um fato micropolítico... O que conta aqui é a idéia de um agenciamento de enunciação e de uma circunscrição existencial, que implica o desenvolvimento de referências intrínsecas, ou seja, de um processo de auto-organização ou de singularização.

Por que esse retorno, como um leitmotiv, aos agenciamentos de enunciação? Para evitar atolar-se, tanto quanto for possível, no conceito de “Inconsciente”. Para não reduzir os fatos da subjetividade a pulsões, afetos, instâncias intra-subjetivas e relações inter-subjetivas. Como é óbvio, esse gênero de coisas terá um lugar nas preocupações esquizoanalíticas, mas somente a título de componente e sempre em certos casos de enfoque. Destacamos, por exemplo, que existem agenciamentos de enunciação não comportando componentes semiológicos significacionais, agenciamentos que não têm componentes subjetivos, outros que não têm componentes conscienciais... O agenciamento de enunciação será levado, assim, a “exceder” a problemática do sujeito individuado, da mônada pensante conscientemente delimitada, das faculdades da alma (o entendimento, a vontade...), na sua acepção clássica. Parece-me importante sublinhar de passagem que, no início, sempre tratamos com conjuntos, com conjuntos que são, a princípio, indiferentemente materiais e/ou semióticos, individuais e/ou coletivos, ativamente maquínicos e/ou passivamente flutuantes. [continua...]


Clique aqui para ler o texto completo, publicado na Revista Ensaios (Universidade Federal Fluminense), n.1, v.1, ano 1, 2° sem. 2008.

domingo, 30 de novembro de 2008




Aqui não adianta latir, tem que morder!

domingo, 9 de novembro de 2008

"Onde havia sublimação, que advenha angústia..."[*], por Valter A. Rodrigues

Tomo como ponto de parti-da uma frase algo enigmática enunciada por Freud ao finalizar sua Conferência XXXI (Novas conferências introdutórias) que, em suas múltiplas possibilidades de tradução, me convida a pensar direções para os impasses que o trabalho com a subjetividade tem colocado neste presente tomado por um furor higienista, classificador, objetivante e tipicamente novecentista que, penso, deveria estar já superado pelas lutas e questionamentos que marcaram o século XX: Wo Es war, soll Ich werden.
Os que têm uma mínima familiaridade com a obra de Jacques Lacan conhecem seu gesto disruptivo em relação à ortodoxia freudiana de caráter normativo/adaptativo ao propor, em vez da tradução consagrada por James Strachey, "Where the id was, there the ego shall be" ["Onde estava o id, ali estará o ego"], esta outra, preciosística em sua atenção às possibilidades significantes do texto freudiano: "Là où c’était, [peut-on dire], là où s’était, [voudrions-nous faire qu’on entendit], c’est mon devoir que je vienne à être"[1]. Costumamos encontrar à guisa de tradução brasileira esta forma simplificada: "Lá onde isso era, eu devo advir" (ou mais extensa e próxima ao francês, como a proposta por Garcia-Roza: "Ali onde se estava, ali como sujeito devo vir a ser"[2]; ou, ainda, sinteticamente, afirmando plenamente a psicanálise como talking cure, “Ali onde Isso fala, devo advir”). Temos, nesta perspectiva posta por Lacan, o passe de uma psicanálise adaptativa, na qual "o ego deve ocupar o lugar do id" (aclimatada ao espírito anglo-saxão, poderíamos dizer), para outra que aspira operar, em seu curso, uma subversão do sujeito em sua tomada de posição quanto ao desejo [onde Isso fala, devo advir].
Não pretendo aqui, com estas observações, entrar nos desdobramentos que podem ser pensados a partir dessas traduções/traições/subversões do texto freudiano, nem dedicar-me a mais um ensaio sobre a problemática do eu tal como pensada por Freud ou Lacan, mas tão somente tomá-la como leitmotiv para trazer à cena inquietações que penso ser mais do que legítimas em um momento em que, graças a uma certa neurociência em aliança com a indústria [farmacêutica, mas não só] e a mídia, a normatização médico-psiquiátrica recupera seu esplendor dos escombros iluministas do século XIX, arrastando consigo uma multiplicidade de saberes psi que até recentemente persistiam - ou aparentavam persistir - em uma ainda que tênue afirmação de autonomia e resistência.
A referência a Freud e sua enigmática afirmação é mais do que um artifício entre outros possíveis. Após ter deslocado a hegemonia novecentista/iluminista do saber psiquiátrico com a invenção do inconsciente, levando os psiquiatras a uma busca dos saberes psicanalíticos como suporte para uma apreensão fenomenológica da doença, hoje é a psicanálise que, muitas vezes capturada numa ilusão objetivista e redutiva que acaba por negar a própria teoria freudiana e seus matizes, não cessa de ser seqüestrada pelo saber psiquiátrico de base biológica (e sua nosografia – representada pelo CID-10 e pelo DSM-IV –, que expressa um saber que chega a se afirmar a-teorético,[3] posto que fundado em "resultados", em "tratamentos", e, por conseqüência, na "verdade" do organismo e em uma concepção reducionista de sua "saúde" como "ausência de mal-estar"), reduzindo-se a uma máquina - ainda que um tanto emperrada, buscando afirmar-se ainda eficaz - de identificação e interpretação de sintomas. Uma ferramenta teórica que, ao reduzir-se a codificadora (ou decodificadora, via interpretação) dos quadros sintomáticos descritos pela nosografia psiquiátrica, em relação de exterioridade ao que se propõe conhecer, corre o risco de tornar-se ciência aplicada, em lugar de implicada[4].


CONTINUA! texto em construção.
[*] Este título foi roubado imaginária e literalmente de um artigo que não li: "Arte: onde havia sublimação, que advenha angústia", de M. Meiches e E. Alperowith, publicado, conforme referência, em Percurso, n. 15, 1995, pp. 82-88. O artigo consta das referências bibliográficas de FRAYZE-PEREIRA, João A. Arte, dor; inquietudes entre Estética e Psicanálise. Cotia-SP: Ateliê Editorial, 2005. Esse título remeteu-me imediatamente - por obviedade - à frase de Freud e ativou em mim o desejo de escrever sobre as inquietações a respeito dos impasses da clínica contemporânea que tenho manifestado persistente e insistentemente em palestras e em salas de aula. Espero que o desenvolvimento do texto justifique o roubo. Como o texto está sendo produzido "ao vivo", são bem-vindas as participações por meio de comentários.

[1] Que podemos traduzir, conservando a literalidade do texto: “Lá onde Isso estava, pode-se dizer, lá onde S’estava, deveremos fazer com que se entenda, é meu dever que eu venha a ser”.
[2] GARCIA-ROZA, Luiz Alfredo. Freud e o inconsciente. Rio de Janeiro: Zahar Ed. 1984. p. 209.
[3] Ver, a respeito, os artigos publicados em MAGALHÃES, Maria Cristina Rios (org.) Psicofarmacologia e psicanálise. São Paulo: Escuta, 2001. Ver também Joel BIRMAN, Diagnósticos da contemporaneidade, in MACIEL JR., Auterives; KUPERMANN, Daniel; TEDESCO, Silvia (org.) Polifonias: clínica, política e criação. Rio de Janeiro: Contracapa/Mestrado em Psicologia da Universidade Federal Fluminense, 2005. p. 101-108.
[4] Esse é um cenário comum nos cursos de Psicologia, particularmente naqueles que se inscrevem como "Ciência da Saúde", afastando-se de seus pares das Ciências Humanas (a sociologia, a investigação etnográfica, a filosofia, as artes...). A Psicologia "alimenta-se" a bel prazer de conceitos freudianos (e, em menor grau, junguianos e reichianos e winnicotianos e... e...), particularmente quando se trata de instrumentar-se - para dar um exemplo dos mais gritantes - para a leitura de testes projetivos os mais diversos, sem que necessariamente implique-se com o fazer teórico da psicanálise (ou de qualquer outro campo de produção de conhecimento) e sua pragmática. Mas não só. Essa implicação, como veremos, é bem mais exigente e mais ampla.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

ARTIFÍCIOS PERROS. CARTOGRAFIA DE UM DISPOSITIVO DE FORMAÇÃO, por Cynthia Farina


Saltando ou de quatro, eram as maneiras como se podiam cruzar as insólitas aberturas que conduziam à sala da instalação. Toda vermelha, a sala continha risos nervosos estirados sobre um colchão com almofadas no centro. Risos que não se desgrudavam de um vídeo caseiro projetado numa grande tela de TV, a um metro do colchão. Risos atentos a anatomias inverossímeis, a fotografias desconcertantes, expostas nas paredes da sala. A mesma pessoa havia fotografado, desenhado, filmado e projetado as imagens. A mesma pessoa que era também imagem, motivo, tema e personagem das cenas e do cenário: o artista. Ele compartilhava o protagonismo das imagens com dois mais, um deles que sobre as duas patas traseiras media mais ou menos a sua altura, e um filhote, talvez da mesma raça que o animal adulto. Os risos voyeurs acomodados no colchão apreciavam incômodos o despojamento e a sedução das aproximações corporais até o ato em si, até a relação sexual entre os dois machos adultos das duas espécies. O homem, de quatro, acolhia o cachorro que se sustentava em duas patas. Este, toda uma virilidade protagonista.
Para ler o texto na íntegra, clique aqui.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Agenciamento, por Luiz Fuganti

O conceito de agenciamento opera um duplo ultrapassamento em relação ao modo de pensar da tradição inaugurada pelo humanismo moderno. Por um lado, destitui a idéia dominante de uma natureza humana a priori - cuja forma legitimaria o senso comum do sujeito do conhecimento, a partir da constituição de um modo superior de desejar, neutro e desinteressado; por outro, desqualifica a verdade dos valores universais extraídos ou descobertos a partir de um plano de objetos ideais em si, constitutivo do bom senso - plano pretensamente superior ao plano de natureza e das forças de produção das formações sociais (ainda banhado de paixões humanas interessadas e parciais por natureza), - como fundamento que torna possível o conhecimento verdadeiro, imparcial e universal.

Essa dupla ilusão, a de um fundamento neutro formal da subjetividade e a do fundamento ideal como valor em si constituinte da universalidade dos valores humanos, engendra a insípida idéia de autonomia moral e racional como liberdade e conhecimento possíveis do homem. Operar sua desconstrução ao mesmo tempo em que se destitui a idéia de uma interioridade como instância unitária e primeira da vontade ou do desejo, mesmo e sobretudo de caráter natural, suposta como separada e como primeira natureza do homem, juntamente com a destituição da idéia de intencionalidade ou finalidade do desejo, mesmo e sobretudo quando seu objeto se interioriza na pura forma do Dever, é uma tarefa de primeira ordem para quem quer realmente criar um novo conceito e uma prática de educação que invistam na potencialização das capacidades criativas do homem.

Para Deleuze e Guattari, criadores do conceito de agenciamento, a Natureza é Fábrica. Como em Spinoza, fábrica de si mesma e de tudo que dela decorre. E o que produz essa fábrica? Real, nada mais, nada menos do que o próprio real como produto de sua Potência absoluta de Acontecer. Ora, se a natureza não é algo dado, mas uma realidade que não pára de produzir-se a si mesma, também as partes que a compõem e dela participam não param de ser produzidas e de participar da produção de si mesmas. E se nós somos partes efetivas dela, não há sujeito ou natureza humana natural já pronta, nem mesmo em progresso ou processo de melhoramento ou reforma de uma essência original, como querem moralistas, racionalistas e humanistas. Também não podem haver objetos ideais ou valores universais que permaneceriam imutáveis num plano que a transcenderia. A natureza humana, seu meio específico e seus objetos estão em processo ininterrupto de modificação e produção de si nos devires, tempos e movimentos reais que atravessam a existência desse animal que se autodenomina homem.

A idéia de uma forma humana espiritual e superior à natureza emerge como uma ilusão de consciência, a qual pressupõe um plano de realidade separado como origem da representação do real e que legitimaria o corte homem/natureza, cultura/natureza, industria/natureza. A virtude dessa forma se manifestaria ao longo de sua história, no desenvolvimento de suas relações internas, desdobrando-se em uma prática moral cada vez mais desinteressada e em um conhecimento racional e científico cada vez mais universal, apesar de cada vez mais especializado. Essa forma racional de conhecer e modo moral de se conduzir tornam-se suportes de uma suposta autonomia formal, constitutiva do lugar da autoridade, autorizada e autorizante, que fariam das forças mais nobres da vida função de valores de progresso, desenvolvimento e aperfeiçoamento da Forma-homem, cujo sentido é em última instância determinado pelas forças constitutivas do tipo de poder que ela integra: nesse sentido, a organização de um corpo eficiente e a formação para uma capacitação de um sujeito competente tornam-se o horizonte comum das práticas do homem sobre si mesmo. Ora, se a educação é a porta de entrada para a inserção da vida humana nesse processo de formação, já adivinhamos sob quais pressupostos ela opera.

Na verdade, todo esse plano de organização de uma formação social pressupõe um diagrama virtual e não formal de relações de forças que trabalha de modo microfísico e micrológico, atualizando-se ou concretizando-se através de agenciamentos de poder, que constituem-se como dispositivos ou máquinas concretas sociais de produção de subjetividade e de produção de individualidade. Uma verdadeira fabrica de modos de subjetivação, de individuação e de objetivação. Esses a priori formais em verdade são resultados de compostos de forças, produzidos a posteriori. Em outras palavras, foi preciso antes que essa Forma ou Estrutura humana fosse produzida ou inventada (não por Deus ou por uma Natureza natural ou Humana em evolução espontânea ou inteligente) e constituída como condição de produção de pessoas ou sujeitos (morais e de conhecimento). E conforme a natureza ou qualidade das relações de forças que a compõem e que ela integra, ou conforme a natureza ou qualidade do conjunto afetivo (ações e paixões) que tece uma formação de um corpo social que a sustenta e que ela unifica, essa Forma regula o grau de captura ou de soltura do desejo. Por aqui se pode avaliar a qualidade dos modos de viver que essa formação de poder necessita produzir e/ou é capaz de suportar, que se constitui nela e que ela constitui como legítimos modos de desejar e pensar normais.

Durante demasiado tempo a modernidade permaneceu prisioneira da idéia de uma consciência em si como entidade fundante do conhecimento, da verdade científica, e também da noção de uma consciência universal do homem capaz de ultrapassar e se sobrepor aos modos ideológicos de saber e aos seus interesses sempre parciais de poder, com suas armadilhas e modos de ocultar, manipular e usurpar.

Deixamos nos aprisionar por esquecimento do que nos torna cúmplices, cegueira, ilusão ou covardia? Porque insistimos em não perceber que a verdade objetiva tanto quanto o sujeito do conhecimento, seu lugar e forma de emissão de verdade, autorizado e autorizante, são produtos de um agenciamento maquínico que serve de função a algo que captura a vida de fora? Será que nosso modo de viver não está ligado a um agenciamento de poder que ao mesmo tempo nos captura e separa de nossas potências próprias de criar realidade, mas também nos sustenta e liga nossa impotência ao poder de reproduzir e transmitir ordens? Qual vantagem recebemos como recompensa pela concessão que fazemos?

Quando Foucault, inspirado em Nietzsche, veio nos mostrar que formas de discursos e formas de sensibilidade constituíam-se como verdadeiros dispositivos de produção de corpos submetidos e mentes assujeitadas, que operavam fabricando subjetividades e corporeidades, nas famílias, escolas, quartéis, fábricas, hospitais, prisões, universidades etc., logo quis-se reduzir o alcance dessa desconstrução e do papel desses dispositivos a modos econômicos de produção ou a aparelhos ideológicos de Estado, sequer supondo que ao contrário, eram os modos econômicos e regimes políticos que em certo sentido dependiam de regimes de sensibilidade e regimes de linguagem.

O conceito de agenciamento torna-se então um operador de primeira ordem, uma vez que remete ao modo concreto de produção de realidade, em qualquer dimensão, material ou imaterial, e não à uma verdade que representaria o real. O agenciamento é antes de tudo um ACONTECIMENTO multidimensional. Todo agenciamento incide sobre uma dupla dimensão: 1) uma dimensão relativa às modificações corporais (ações e paixões) ou estados de coisas que efetuam um acontecimento, remetendo-os a uma formação de potências; 2) uma outra dimensão relativa às transformações incorporais ou enunciados de linguagem (atos) que efetuam o acontecimento na sua face incorporal e que remetem a um regime coletivo de enunciação. Estas duas dimensões são necessariamente atravessadas por um duplo processo e um duplo movimento: processo de descodificação das formas (forma própria do regime corpóreo e da forma própria do regime de signos ou da linguagem); e um movimento de desterritorialização ou de dessubstancialização das substâncias (das substâncias corporais ou coisas - estados do movimento - e das substâncias incorporais ou palavras - estados do sentido ou do tempo). A forma dos corpos e seus estados remete a lição das coisas. A forma do discurso remete à lição das palavras. As duas dimensões estão em pressuposição recíprocas e se atravessam e se conjugam, apesar de suas formas próprias heterogêneas manterem-se irredutíveis e autônomas. Esse atravessamento é provocado pela variação dos movimentos de desterritorialização e processos de descodificação do desejo, e faz mudar ora o estado das coisas e a condição de sensibilidade, ora o sentido de mundo e a condição de dizibilidade. Nessa medida, compreendemos que uma linha de fuga (ou de acontecimento) absoluta e virtual atravessa toda experiência real, pondo em variação permanente suas condições, e portando condicionando todo o processo de apreenção e produção do real. Assim também coloca-se em variação as condições de ensino e aprendizado: essa linha de variação virtual acaba por constituir, conforme o agenciamento que a efetua, os limites do que pode ser sentido, movido, dito ou pensado.

Se um agenciamento liga, conecta, conjuga, compõe, combina, produz, fabrica, reveza, distribui e consome corpos e mentes, movimentos e pensamentos, então podemos colocar assim o problema da educação: a qual tipo de agenciamento acoplamos a vida que queremos ensinar e criar e a nossa que pretende ensinar? Se as ligamos a um agenciamento negativo de poder, nossa educação será uma EDUCAÇÃO PARA A OBEDIÊNCIA. Se as ligamos a um agenciamento afirmativo de potência, a educação que teremos será uma EDUCAÇÃO PARA A POTÊNCIA.

Fonte: www.escolanomade.org