domingo, 3 de agosto de 2008

Cartografias da diferença: vida, pensamento e invenção.



O grupo de leitura Cartografias da diferença: vida, pensamento e invenção se propõe a discutir a constituição do pensamento ocidental a partir da emergência da filosofia no mundo grego e dos desdobramentos práticos deste processo na contemporaneidade, percebendo as relações entre poder e saber daí resultantes. A idéia é criar possibilidades para um modo de pensar que desvie do paradigma da transcendência, tecendo um plano de pensamento autônomo, que dispense a exigência de qualquer referente que esteja além das práticas que estabelecemos na vida cotidiana. Esse grupo emerge numa atmosfera de inventividade para propiciar articulações com a filosofia da diferença, modo de pensar e viver à maneira do artista, criador de outros conceitos, outras idéias, outras sensibilidades, outras práticas. Esse coletivo deseja ativar o encontro com a potência singular da vida alegre.

Coordenador: Maicon Barbosa
Início: 3o de agosto
Local: FTC (módulo II, sala 204) - Rua Ubaldino Figueira, 200 - Exposição
Funcionamento: 20 encontros, com 2 h de duração cada, aos sábados.
Certificação: carga horária de 40 horas.
Valor: R$ 20,00 mensais.
Inscrições: neste blog [preencha a FICHA DE INSCRIÇÃO e envie para usinagrupodetudos@gmail.com] ou na Letras & Prosa Livraria e Café.
Informações: 8104-3984

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Curso "trans_form_ações do cotidiano: artes políticas pra moçada"
















Proposta

O curso trans_form_ações do cotidiano: artes políticas pra moçada tem por propósito constituir um espaço de formação crítica para jovens estudantes de ensino médio, pré-universitários e estudantes recém-chegados às instituições de ensino superior, com o intuito de criar outras perspectivas para o que chamamos de política no cotidiano. Trata-se de um curso prático de experimentação das dimensões políticas da vida diária, que pouco tem a ver com a política institucional/partidária presente nos noticiários e nos períodos eleitorais. Este curso tem por objetivo ampliar a compreensão do que de fato se faz político no dia-a-dia, mesmo e principalmente nas relações mais sutis que estabelecemos uns com os outros. Com isso, o que se pretende é apresentar ferramentas teórico-práticas úteis para a experiência política na formação acadêmica, construindo-a com arte e alegria, aquilo que torna vivo o espaço das escolas, das universidades e das ruas. Artes políticas pra moçada é uma tentativa de articular pessoas interessadas em fazer do cotidiano o território de invenção para outros modos de vida.

Coordenador
Eder Amaral

Período
de 16 de agosto a 22 de novembro de 2008.

Certificação
Carga horária de 60 horas

Vagas
25 [vinte e cinco]

Local
Faculdade de Tecnologia e Ciências (campus Vitória da Conquista)
Rua Ubaldino Figueira, nº 200, Exposição (próximo ao Parque de Exposição Teopompo de Almeida) – Módulo 2, Sala 203.

Funcionamento do curso
15 encontros de 2 horas de duração cada, sempre aos sábados e 30 horas de atividades práticas distribuídas ao longo do período de curso.


Inscrições
As inscrições para o curso trans_form_ações do cotidiano: artes políticas pra moçada são gratuitas. Como as vagas são limitadas, haverá uma entrevista no dia 09/08/2008 com os candidatos que enviarem sua ficha de pré-inscrição (disponível no blog do USINA: http://usinagrupodetudos.blogspot.com) até o dia 08/08/2008 para o e-mail do coletivo (usinagrupodetudos@gmail.com). Após a entrevista, será divulgada no blog do coletivo a lista dos candidatos selecionados para participar do curso, que começará no dia 16 de agosto de 2008, no horário e local divulgados na lista de candidatos.


PROGRAMA

1º ato – no lugar da ladainha, o grito

- Por que política[s]?
- Poder: a que[m] serve?
- Macropolítica e micropolítica
- Política e transformação do cotidiano
- “Casa de ferreiro, espeto de pau”: como sair dessa dificuldade?

2º ato – do estudante artista

- Arte e política
- Resistência e invenção
- O papel das mídias e o discurso da “era da informação”
- Ética e moral: qual é a diferença?
- Est/éticas da r/existência: a vida como obra de arte

3º ato – por um movimento estudantil que seja outro

- Que fazer?
- “Vivemos numa democracia”... ãn?
- Territórios políticos na escola
- Territórios políticos na universidade
- “Sejamos realistas, (((criemos))) o impossível”


Clique nas palavras-link abaixo para baixar o folder, o cartaz e a ficha de pré-inscrição do curso:

FOLDER
CARTAZ
FICHA DE PRÉ-INSCRIÇÃO

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Aula de Gilles Deleuze sobre Spinoza, em 24/01/1978

Trechos:
[...] Quando eu faço um encontro de modo que a relação do corpo que me modifica, que age sobre mim, combina-se com minha própria relação, com a relação característica do meu próprio corpo, o que é que acontece? Eu diria que minha potência de agir é aumentada; ela é aumentada ao menos sob aquela relação. Quando, ao contrário, eu faço um encontro de modo que a relação característica do corpo que me modifica compromete ou destrói uma de minhas relações, ou minha relação característica, eu diria que minha potência de agir é diminuída, ou mesmo destruída. Nós voltamos a encontrar aqui nossos dois afetos - affectus - fundamentais: a tristeza e a alegria.
E todas as paixões, em seus detalhes, Spinoza irá engendrá-las a partir desses dois afetos fundamentais: a alegria como aumento da potência de agir, a tristeza como diminuição ou destruição da potência de agir. Isso equivale a dizer que cada coisa, corpo ou alma, se define por uma certa relação característica, complexa, mas eu também poderia dizer que cada coisa, corpo ou alma, se define por um certo poder de ser afetado.
Ora, um corpo deve ser definido pelo conjunto das relações que o compõe, ou, o que dá exatamente no mesmo, pelo seu poder de ser afetado. E enquanto vocês não souberem qual é o poder de ser afetado de um corpo, enquanto vocês o aprenderem assim, ao acaso dos encontros, vocês não estarão de posse da vida sábia, não estarão de posse da sabedoria.
O que distingue uma rã de um macaco? Não são caracteres específicos ou genéricos, diz Spinoza, mas o fato de que eles não são capazes das mesmas afecções. Assim, seria preciso fazer, para cada animal, verdadeiros mapas de afetos, os afetos dos quais um bicho é capaz. Para os homens é a mesma coisa: os afetos dos quais determinado homem é capaz. Nesse momento percebe-se que, segundo as culturas, segundo as sociedades, os homens não são capazes dos mesmos afetos.
Um poder de ser afetado é realmente uma intensidade ou um limiar de intensidade. O que Spinoza realmente quer é definir a essência de alguém de maneira intensiva, como uma quantidade intensiva. Enquanto vocês não conhecem suas intensidades, vocês se arriscam a ter um mau encontro, e poderão muito bem dizer que é belo o excesso, a desmedida... porém não há desmedida, não há senão fracasso, nada além do fracasso. Advertência quanto às superdoses [overdoses]. É precisamente o fenômeno do poder de ser afetado que é excedido com uma destruição total.
Mas eu ainda não defini o que é a potência de agir. As auto-afecções ou afetos ativos supõe que nós estejamos de posse de nossa potência de agir e que, neste ou naquele ponto, tenhamos saído do domínio das paixões para entrar no domínio das ações.
Vocês vêem que, à diferença da idéia de afecção, ao invés de ser a apreensão da mistura extrínseca de um corpo com outro, ou do efeito de um corpo sobre outro, a noção elevou-se à compreensão da causa, a saber: se a mistura produz este ou aquele efeito, é em virtude da natureza da relação entre os corpos considerados e da maneira pela qual a relação de um corpo se compõe com a relação do outro corpo.
Se vocês consideram-se afetados de tristeza, creio que tudo está arruinado, não há mais saída, por uma razão muito simples: nada na tristeza, que diminui sua potência de agir, nada na tristeza pode induzi-los a formar a noção comum de algo que seria comum ao seu corpo e aos corpos que os afetam de tristeza. Por uma razão muito simples: é que o corpo que os afeta de tristeza só os afeta de tristeza na medida em que ele os afeta sob uma relação que não convém com a sua. Spinoza quer dizer algo muito simples, que a tristeza não torna ninguém inteligente. Na tristeza estamos arruinados. É por isso que os poderes têm necessidade de que os súditos sejam tristes. A angústia jamais foi um jogo de cultura da inteligência ou da vivacidade. Quando vocês têm um afeto triste, é porque um corpo age sobre o seu, uma alma age sobre a sua em condições tais e sob uma relação que não convém com a sua.
Você é afetado de alegria. Sua potência de agir é aumentada, isso não quer dizer que você esteja de posse dela, mas o fato de que você esteja sendo afetado de alegria significa e indica que o corpo ou a alma que o afeta desse modo afeta você sob uma relação que se combina com a sua, e isso abrange desde a fórmula do amor até a fórmula alimentar. Num afeto de alegria, portanto, o corpo que o afeta é indicado como compondo a relação dele com a sua, ao invés da relação dele decompor a sua. Desde então, alguma coisa irá induzi-lo a formar a noção do que é comum ao corpo que o afeta e ao seu, à alma que o afeta e à sua. Nesse sentido, a alegria torna inteligente. Sentimos que aqui há um truque interessante porque, método geométrico ou não, estaremos plenamente de acordo, ele pode demonstrá-lo. Mas existe um apelo evidente a uma espécie de experiência vivida. Há um apelo evidente a uma maneira de perceber, e bem mais, a uma maneira de viver. É preciso ter desde já um tal ódio às paixões tristes, a lista das paixões tristes em Spinoza é infinita, ele chegará a dizer que toda idéia de recompensa envolve uma paixão triste, toda idéia de orgulho, a culpabilidade. É um dos momentos mais maravilhosos da Ética.
É como se os afetos de alegria fossem um trampolim, eles fazem vocês passarem através de alguma coisa pela qual jamais poderiam passar se só existissem tristezas. Eles nos solicitam a formar a idéia do que é comum ao corpo que afeta e ao corpo que é afetado. Isso pode fracassar, mas pode ter sucesso e tornar-me inteligente. [...]
Tradução: Francisco Traverso Fuchs
Leia a transcrição na íntegra clicando aqui (também disponível em TEXTOS NA REDE)

sábado, 28 de junho de 2008

Centro de Estudos Claudio Ulpiano



O Centro de Estudos Claudio Ulpiano é uma Associação Civil sem fins lucrativos, fundada por um grupo de antigos alunos de Claudio Ulpiano, com o objetivo de preservar e divulgar o seu trabalho - centenas de aulas gravadas e escritos filosóficos -, promover cursos e criar novos núcleos de estudo e pesquisa nas áreas de filosofia, ciência e artes.

Claudio Ulpiano, pensador por excelência, professor de filosofia da UERJ e da UFF, pode ser considerado o maior divulgador do pensamento de Gilles Deleuze no Brasil. Suas aulas, dentro e fora da universidade, formaram e inspiraram várias gerações no estudo rigoroso e vivo da filosofia. Seus alunos, de cursos e profissões variadas, vinham de todos os cantos da cidade, e a expressão original dessas aulas permanece até hoje na produção acadêmica, artística, e no pensamento de todos os que tiveram o privilégio de assisti-las.

Ao transcrever e disponibilizar, neste site, as aulas do professor Claudio Ulpiano, o CCLULP visa torná-las acessíveis não só aos seus antigos alunos, mas também àqueles que nunca tiveram a oportunidade de ouvi-las. Que a Internet assuma, então, o lugar da sala de aula, que Claudio estimava acima de tudo, e continue formando novos e entusiasmados alunos.

Acesse: www.claudioulpiano.org.br

domingo, 22 de junho de 2008

As sociedades de espetáculo hoje, por Luiz Fuganti

Não há sociedade constituida com Estado ou Lei que não demande formação de espelho de validação ou reconhecimento de existência de seus sujeitos. Toda vida separada do que pode, isto é, apartada de sua capacidade de acontecer no imediato do movimento e do tempo próprios que a atravessam, carece e investe um plano de reconhecimento. Na impotência para gerar valor e produzir eternidade na existência, pela afirmação imediata da própria diferença, criando linhas de singularização e estilização de si, investe-se uma instância de representação ou julgamento que atribui ou destitui valor a partir da esfera simulada de um lugar a se chegar: as sociedades atuais continuam a fabricar a necessidade de se chegar a um lugar do sucesso a partir de um fracasso intransponível como uma falta de objeto como suposta essência do desejo. E não há espetáculo bem sucedido que não torne o vencedor em vencido pela própria vitória.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Luz silenciosa, filme de Carlos Reygadas



Há um sofrimento que toma conta da vida dos personagens, fazendo-os buscarem respostas no terreno mais imundo que pode existir: a moral. Há uma violência produzida pela moral que inevitavelmente impõe, àquele que sofre as conseqüências dela, uma via venenosa para que o sofredor encontre a causa das suas dores em si mesmo: a culpa. Duas grandes cenas marcam o filme: as lágrimas de Johan e Esther. A dor expressa no rosto de Johan, sentado junto à mesa, sozinho, chorando durante longos minutos; a outra cena, profundamente marcante, após uma longa cena no interior de um automóvel: Esther diz a Johan que sente saudade dos tempos em que eram felizes, quando ela se sentia viva. Ainda com o automóvel em movimento, ela pede para Johan parar: ao sair do carro, sob chuva forte, ela encosta a cabeça no tronco de uma árvore e chora longamente... Uma cena memorável. Muita dor, muita infelicidade. As lágrimas de ambos mostram o retrato de prisioneiros de uma moral que não pára de os violentar. Estão separados da capacidade de efetuar plenamente o que podem, no corpo e na mente. Não há moral que não opere essa amputação... Não, a culpa não é inerente à natureza humana. Ela é um terrível veneno que faz com que a moral seja ainda mais necessária aos que sofrem os efeitos dela... Filme grandioso, que faz lembrar algumas obras-primas de Tarkovski. Sensação pura. Mas quem está acostumado a interpretações, poderá se entediar.

Amauri Ferreira, 16.06.08


Comentário do "The Guardian":

No seu melhor, o novo filme de Reygadas tem a riqueza de um Mallick ou a simplicidade transcendente de um Ozu; no seu pior ocasional, tem o sopro de Lars Von Trier. Mas não se enganem: este filme pensado em profundeza, formalmente conseguido, de aspecto belíssimo e inesperadamente empolgante de um realizador que dá o salto para a primeira linha do cinema mundial. Na passagem a negro final, deixa para trás um ecrã branco, como se o interior da retina ficasse a sensação tremeluzente por ter olhado para algo de esmagadoramente poderoso.
É com certeza um desenvolvimento nítido e convincente do primeiro filme de Reygadas, Japon, e de longe superior ao seu ambicioso mas trapalhão segundo, Batalha no Céu. Uma passada em falso cuja tolice e superficialidade é exposta em quantidade. Luz Silenciosa tem momentos sublimes, meditativos: momentos de êxtase visual não comprometida que chega perto de desafiar as leis de gravidade cinematográfica… [...]

Leia mais sobre o filme clicando aqui

sábado, 7 de junho de 2008

Sociedade: Entrevista com Félix Guattari - A subjetivação subversiva [30/12/1990]




Para o pensador francês, coisas como a crise no Oriente Médio, o racismo, a violência nas grandes cidades e a droga estão relacionadas com o achatamento das subjetividades, que podem subverter a ordem opressora através de movimentos conservadores, desafiando a lógica progressista.


por Antônio Lancetti e Maria Rita Kehl*

Impossível definir Félix Guattari como pensador sem levar em conta a sua dimensão militante, já que para ele essas coisas não se separam: a reflexão e suas conseqüências práticas, o individual e o social, o público e o privado. Por isso mesmo, Guattari foi se transformando nessa espécie riquíssima (e hoje rara) de ser humano que vai sendo expulso, ou se auto-expulsando, de todas as instituições, de todos os lugares onde pensamento e ação se paralisam, comprometidos com a manutenção de posições de poder: as sociedades de psicanálise na França, os movimentos e partidos políticos, os modismos intelectuais que tendem a banalizar na forma de grandes conceitos universais a multiplicidade das singularidades humanas.

Excêntrico (ou seja, fora do centro), mas não marginal; coerente com suas idéias, o autor do Anti-Édipo (com Gilles Deleuze), Revolução molecular, Cartografias do desejo (com Suely Rolnik) e do recente As três ecologias, não se considera sem lugar, num mundo onde os territórios devem ser continuamente reinventados. Esta excentricidade fez com que ele sempre se interessasse pelas formações sociais que expressam dissonâncias subjetivas em relação ao achatamento que o mercado e os mass media promovem: dos movimentos de 68 na Europa à guerra no Oriente Médio, das rádios livres à ecologia, da crise no Leste Europeu à reinvenção do socialismo pelo PT, partido que ele acompanha com interesse desde sua fundação.

A entrevista que se segue foi concedida por Félix Guattari a Antônio Lancetti e Maria Rita Kehl, durante sua última visita a São Paulo, em agosto deste ano. A tradução é de Peter Pál Pelbart.

Para ler a entrevista completa, clique aqui


sexta-feira, 6 de junho de 2008

Trecho da Genealogia da moral, de Nietzsche

Está fora de dúvida que através dela [a atividade maquinal] uma existência sofredora é aliviada num grau considerável: a este fato chama-se atualmente, de modo algo desonesto, "a bênção do trabalho". O alívio consiste em que o interesse do sofredor é inteiramente desviado do sofrimento - em que a consciência é permanentemente tomada por um afazer seguido de outro, e em conseqüência resta pouco espaço para o sofrimento: pois ela é pequena, esta câmara da consciência humana! A atividade maquinal e o que dela é próprio - a absoluta regularidade, a obediência pontual e impensada, o modo de vida fixado uma vez por todas, o preenchimento do tempo, uma certa permissão, mesmo educação para a "impessoalidade", para o esquecimento de si, para a "incuria sui" -: de que maneira completa e sutil o sacerdote ascético soube utilizá-la na luta com a dor! Precisamente quando tinha de lidar com sofredores [...] necessitava ele de pouco mais que a pequena arte de mudar os nomes e rebatizar as coisas, para fazer com que vissem benefício e relativa felicidade em coisas até então odiadas. [...] Um meio ainda mais apreciado na luta contra a depressão é a prescrição de uma pequena alegria que seja de fácil obtenção e possa ser tornada regra. [...] A forma mais freqüente em que a alegria é assim prescrita como meio de cura é a alegria de causar alegria (ao fazer benefício, presentear, aliviar, ajudar, convencer, consolar, louvar, distinguir); no fundo, ao prescrever "amor ao próximo", o sacerdote ascético prescreve uma estimulação, embora em dosagem prudente, do impulso mais forte e mais afirmador da vida - da vontade de poder. A felicidade da "pequena superioridade", que acompanha todo ato de beneficiar, servir, ajudar, distinguir, é o mais abundante meio de consolo de que costumam servir-se os fisiologicamente obstruídos, supondo-se que estejam bem aconselhados. [...] Todos os doentes, todos os doentios, buscam instintivamente organizar-se em rebanho, na ânsia de livrar-se do surdo desprazer e do sentimento de fraqueza: o sacerdote ascético intui esse instinto e o promove; onde há rebanho, é o instinto de fraqueza que o quis, e a sabedoria do sacerdote que a organizou.

Friedrich Nietzsche, "Genealogia da Moral", terceira dissertação, 18. Trad. Paulo César de Souza.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Passagens da clínica, por Eduardo Passos e Regina Benevides

Repetimos a pergunta: o que pode a clínica? A questão insiste, obrigando-nos a retomar a relação da clínica com o fora da clínica, que é convocado nesta experiência que chamamos de transdisciplinar. Entre a clínica e a arte, a clínica e a filosofia, e entre a clínica e a política, a passagem é feita por modulações. Modulando a pergunta espinosista sobre o que pode um corpo, formulamos, então, nossa questão.
Perguntar o que pode é propor o tema do poder, da potência que nos impulsiona a fazer essas passagens. Assim, indicamos a direção que queremos sempre dar ao nosso percurso. Percorrer essas modulações da questão, passar da clínica à arte, à filosofia e à política, é ter de habitar esse espaço intervalar do entredomínios, do que não é totalmente isto ou aquilo, do que está na operação da conjunção "e", lá onde proliferam encontros e composições.
Em trabalho anterior, ao parafrasear a pergunta espinosista sobre o que pode um corpo, propusemos esta outra: o que pode a clínica, tomando a argumentação deleuziana acerca da Ética? Deleuze, ao ler a argumentação de Espinosa acerca da relação expressiva entre a substância divina e os modos existentes, destaca o jogo de equivalências entre as "duas tríades do modo finito". Aproveitando os comentários de Deleuze e forçando a passagem da filosofia à clínica, entendemos a clínica como um modo finito ou modo existente. Como tal, ela toma as afecções como seu ponto de incidência, definindo-se ela própria como um conjunto de afecções. Perguntar o que pode a clínica é o mesmo que perguntar do que a clínica é composta, o que, por sua vez, equivale a perguntar como ela pode ser afetada e que conjunto de afecções (affectio) exprimem a sua essência. Dito de outra maneira, dizer que a clínica tem uma composição equivale a dizer que ela lida com composições. É nesse sentido que podemos pensar a atitude de colocação do próprio caso da clínica em análise, indagando acerca do que nela é posto em relação, e de como ela afeta e é afetada nas relações: a ética da clínica. A clínica é, ao mesmo tempo, um modo de lidar e acompanhar casos e um caso ela mesma. A clínica dos casos e o caso da clínica. [...]

Faça download deste texto clicando aqui.

OBS.: este texto faz parte do livro Polifonias; clínica, política e criação, organizado por Auterives MACIEL Jr, Daniel KUPERMANN e Silvia TEDESCO e publicado, em 2005, no Rio de Janeiro, por Contra Capa Livraria, em parceria com o Mestrado em Psicologia da Universidade Federal Fluminense. A divulgação do texto neste blog é um convite à leitura do livro, que reúne excelentes artigos derivados de comunicações feitas em dois eventos organizados pelo Mestrado em Psicologia da UFF, A clínica em questão: conversações sobre clínica, política e criação, ocorrido nos dias 4 e 5.12.2003, e A arte da clínica e a clínica da arte, realizado em 24 e 25.11.2004. Há disponibilidade do livro na editora.

Virtuosismo y revolución: notas sobre el concepto de acción política, por Paolo Virno

I.- En nuestros días, nada parece tan enigmático como la acción. Tan enigmático como inaccesible. Podríamos decir, a modo de chiste: si nadie me pregunta qué es la acción política, creo saberlo; si tengo que explicarle lo que es al que me hace la pregunta, ese supuesto saber se disuelve en una cantinela inarticulada. Y sin embargo, ¿se da, en el lenguaje común, una noción más familiar que la de acción? ¿Por qué una evidencia semejante se ha arropado con tanto misterio? ¿Por qué suscita una admiración semejante? Para responder a estas preguntas no basta con echar mano del eterno pelotón de sacrosantas razones prêtes-à-porter: las relaciones de fuerza desfavorables, el eco tenaz de las derrotas sufridas, la arrogante resignación que la ideología posmoderna no deja de mantener. Otros tantos elementos que tienen su importancia, no hace falta decirlo, pero que, en sí mismos, no explican nada y llegan incluso a sembrar la confusión, en la medida en que nos dejan suponer que atravesamos un túnel oscuro a cuyo final todo volverá a ser como antes. Recíprocamente, la parálisis de la acción está ligada a aspectos esenciales de la experiencia contemporánea. Es ahí, en torno a tales aspectos, donde hay que ahondar, sabiendo al mismo tiempo que no constituyen una desgraciada coyuntura, sino, claramente, un fondo insoslayable. Para romper el hechizo, es preciso elaborar un modelo de acción que precisamente permita a la acción nutrirse de lo que actualmente determina su bloqueo. El propio interdicto debe transformarse en salvoconducto. De acuerdo a una larga tradición, el dominio de la acción política puede circunscribirse, sin temor a equivocarse, mediante dos líneas divisorias. La primera, en relación al trabajo, a su carácter instrumental, taciturno y al automatismo que hace de él un proceso repetitivo y previsible. La segunda, en relación al pensamiento puro, a su naturaleza solitaria y no manifiesta (fugitiva). A diferencia del trabajo, la acción política interviene sobre las relaciones sociales y no sobre materiales naturales; modifica el contexto en el que se inscribe en vez de obstruirlo con objetos nuevos. A diferencia de la reflexión intelectual, la acción es pública, está sometida a la exterioridad, a la contingencia, al rumor de la multitud. [...]

leia este texto na íntegra clicando aqui

Leia também, do autor, Gramática da multidão, em TEXTOS NA REDE

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Biopolítica e sociedade de controle: Notas sobre a crítica do sujeito entre Foucault e Deleuze, por Miguel Ângelo

A sociedade na qual estamos mergulhados apresenta-nos uma grande problemática: a formação do indivíduo mediante os infinitos procedimentos de sujeição. Este problema pode ser abordado de várias formas e por várias teorias, mas torna-se urgente uma análise a partir dos dispositivos de poder-saber na sua relação com a questão da verdade. Em outras palavras, a constituição social do indivíduo, a partir da construção de verdades, seja pelo mesmo ou pelo outro, traz em seu bojo o jogo de forças do exercício do poder, e é a análise deste exercício que se apresenta como uma tarefa político-histórica necessária em nossa sociedade atual. Foucault, em sua genealogia do poder desde os anos 70, nos legou um belo trabalho nesse sentido. O estudo da relação da verdade com o poder permitiu-lhe diagnosticar, historicamente, os contornos do que chamou de sociedade disciplinar, para além da sociedade de soberania, caracterizando suas técnicas e desenvolvendo dois conceitos que se cruzam: o de anátomo-política e o de biopolítica ou biopoder — fundamentais para o entendimento de uma disciplinarização dos corpos em prol de uma economia da verdade.

Aqui temos: poder, sujeição, confinamento, disciplina e verdade. A crítica do sujeito, já em prática desde o anti-humanismo de Foucault dos anos 60, no fundo, é uma crítica do poder na sua relação com a verdade. Em uma aula do curso Em defesa da Sociedade, ele explicita: “Não há exercício do poder sem uma certa economia dos discursos de verdade que funcionam nesse poder, a partir e através dele. Somos submetidos à produção da verdade e só podemos exercer o poder mediante a produção da verdade.” [1] (Foucault, 2000, p. 28-29). Tendo isso em mente, podemos perguntar: como se desenrolaria tal crítica mediante o modelo social no qual estamos inseridos hoje? Para Foucault, o foco de análise histórica são as práticas, práticas políticas de dominação e evidência da verdade perante o indivíduo. Dá-se, então, o encontro com a biopolítica.

[...]

Leia o texto na íntegra em Revista Cinética; Estéticas da Biopolítica.

4. A compaixão dos fortes e o cuidado de si mesmo, por Amauri Ferreira

Um povo doente não conhece o sentimento elevado que as palavras amizade e amor podem expressar. Pela ótica vulgar, quem verdadeiramente ama (ou quem é verdadeiramente amigo) é o sujeito que abastece o outro somente com afetos alegres. Seja nos momentos de alegria e de tristeza, a presença do outro é uma exigência, como se sua prontidão para amar, para ser atencioso, fosse a prova do seu amor e amizade. O cristianismo bebeu muito dessa fonte, ao transformar o amor ao próximo em um bem supremo.
Mas quem não é causa da sua própria alegria, que não ama a si mesmo, exige que alguém lhe ame. De fato, é importante distinguir a diferença entre uma aliança de fortes e uma união de fracos: no primeiro caso, a relação de aliança não deixa escapar o surgimento da dor, pois o que também os mantém juntos é a grandeza de suportar a dor, de fazer um uso interessante dela, não reagindo de modo baixo, com acusações e exigências, mas entendendo que a dor é apenas um “mau jeito” que emerge no encontro dos corpos; já no segundo caso, quando a dor aparece, surge uma inimizade, que pode até transformar-se em ódio: o outro vira um inimigo. Ou seja, pelo campo de visão do ressentido, o outro torna-se um grande companheiro se continuar provando a sua capacidade de gerar somente afetos alegres; mas se na relação surgir também afetos tristes, o seu “verdadeiro” amor (ou sua “verdadeira” amizade) é colocado em dúvida: “Não, você não me ama”. A prova desse “não amor” é justamente o afeto de tristeza que surgiu, em um determinado momento, na relação. Submetido à ficção do “eu”, o sujeito que ressente imagina que o outro o ama por ter-lhe proporcionado prazer... Mas também pode imaginar que o outro não o ama por ter-lhe proporcionado desprazer. Então, imagina-se que o outro pode ter sempre boas ou más intenções... As suas exigências nunca acabam: logo após uma efêmera satisfação, segue uma insatisfação perturbadora. O amor ideal, o amigo ideal, ou uma espécie de “amor-amigo” ideal: o homem perfeito e a mulher perfeita são apenas ícones engendrados por uma carência afetiva que varre todo o campo social. O interessante é que quando se descobre que o parceiro ideal não existe, muitos não querem mais sofrer por um amor “imperfeito”: a saída, então, é não “amar” mais ninguém, tornar-se cético, ter “coração de pedra”, fechar-se numa redoma de vidro e separar o sexo do amor. Paga-se caro por isso: vive-se, então, um sexo mecânico, pueril, sem sabor, quantitativo. Uma vida sexual triste é o que resta aos que perderam a capacidade de expressar livremente os seus sentimentos. E o pior: por não viverem uma relação sexual ligada ao amor, querem acreditar que experimentam o “melhor sexo possível”, já que “todo mundo age assim”. O máximo de prazer, a qualquer preço. As relações são niveladas por baixo, as noções de amor e amizade tornam-se extremamente superficiais.
[...]

Leia (na íntegra) este e outros textos em O anjo exterminador (também disponível em TEXTOS NA REDE)

sábado, 24 de maio de 2008

Édipo e os Dogon: o mito da modernidade questionado, por Henk Oosterling


Tradução: tomaZtadeu

Esta conferência é o resultado de uma antiga fascinação, que diz respeito a uma figura e a um título com os quais tenho me debatido por vários anos. Ambos estão em um livro, escrito pelo filósofo francês Gilles Deleuze e o psiquiatra de orientação lacaniana, Félix Guattari, intitulado Mil platôs, publicado em 1980. Ele constitui a segunda parte de um livro intitulado Capitalismo e esquizofrenia. O título é o seguinte: “28 de novembro de 1947 -- Como criar para si um corpo sem órgãos”. E sob esse curioso título vem um desenho, com a legenda: “O ovo dogon e a repartição de intensidades”.

Nesse título e nesse desenho encontramos uma combinação extremamente intrigante, mas um tanto obscura. Vou citar o primeiro parágrafo para lhes dar uma impressão do desespero filosófico de que fui tomado durante minha primeira leitura: “De todo modo você tem um (ou vários), não porque ele pré-exista ou seja dado inteiramente feito – se bem que sob certos aspectos ele pré-exista – mas de todo modo você faz um , não pode desejar não fazê-lo – e ele espera por você, é um exercício, uma experimentação inevitável, já feita no momento em que você a empreende, não ainda efetuada se você não a começou. Não é tranqüilizador, porque você pode falhar. Ou às vezes pode ser aterrorizante, conduzi-lo à morte. Ele é não-desejo, mas também desejo. Não é uma noção, um cnceito, mas antes uma prática, um conjunto de práticas. Ao Corpo sem Órgãos não se chega, não se pode chegar, nunca se acaba de chegar a ele, é um limite. Diz-se: que é isto – o CsO – mas já se está sobre ele – arrastando-se como um verme, tateando como um cego ou correndo como um louco, viajante do deserto e nômade da estepe".

O título vem de um experimento radiofônico realizado pelo ator e escritor francês Antonin Artaud, no qual esse inovador do teatro, o qual, aliás, era considerado mais ou menos louco pelos psiquiatras, declara guerra aos órgãos. Filosoficamente falando: ele critica radicalmente a maneira como o indivíduo ocidental objetifica e vive seu corpo e seu desejo.

Para ler mais, clique aqui.

Sobre os Dogon: DOGON NOMMOS

domingo, 11 de maio de 2008

POLÍPTICO, por Tomaz Tadeu

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[políptico] V. milonguita

É tudo uma questão de velocidade. Mais. Menos. Me sopra o marrano. O gentil polidor de lentes. É veloz, te digo. O garoto. Ou a escrita dele. Começa fio d’água. Já córrego. Já corre. Escorrego. Quando me dou conta, é marzão. Correnteza louca. Redemoinho. Furacão. Katrina. Catarinão. Vou junto. Me deixo levar. Me deixo? Mal digo. Sou arrastado. Surfa. Ela. Ele. Eu, no sulco. No rastro. Bustrofédon. Ele surta. Ela salta. Eu fico alto. Alterado. Sem tragar. Sem fungar. Sem picar. Na carreira sem carreirinhas. A secas. Como o outro. O bêbado de água cristalina. Mas inspiro, claro. Respiro. Me aproveito das travadas. Pois esse garoto também roda o pé. Dá pra trás. Fica de pé atrás. Logo agora que eu já tinha tirado os pés do chão. Mas agora foi ele quem fincou os pés no chão. Arrasta os pés. Pesadão. Dá topadas no rodapé. Parou de correr. Agora discorre, o sabidinho, o sabidão. Engraçado. Diz corre. Mas fica parado. Não tem outro jeito. Agora é a minha vez. De empurrar o garoto. Botá-lo pra correr. Quer dizer, a escrita dele. Ela continua escorrendo, não nego. Mas essas freadas, sei não. Esses papelitos espalhados pelo chão. Me dizendo o que eu deveria saber. Bocejo. So boring, so boring. Eu não quero saber nada. Saber de nada. Tira essa lousa da minha frente, good boy. Some com esse Livro. Com o Livro. Não vim aqui pra ser informado. Tua informação não vale um tostão. Não quero nem de graça. Te digo, assim perde a graça. Mas dou de barato e te digo logo, na marra, de sopetão, qual é a milonga. Qual é o barato. Mas você já sabe. Soube desde o começo. O que te atrapalhou foi o excesso de prudência. As salvaguardas. Mas aqui não tem nada pra salvar, nem guardas a proteger. Guarda aberta. Estamos aqui pra arriscar. É tudo ou nada. Rola o dado e manda ver. Depois, güenta o tranco. Ou você prefere a segurança do seu chãozinho? Uma milonguita que te leve de volta ao natal? Mas agora fui eu que perdi o caminho. Como ia dizendo, deixa de conversa fiada e me golpeie de uma vez. De direita ou de esquerda, não importa. Me bote a nocaute. Me atinja no peito. Na boca do estômago. Me deixe puto. Me irrite. Me alegre. Me deixe triste. Me arrebate. Tá certo. Eu admito. Foi mesmo isso que você fez a maior parte do tempo. Eu sei. Você dá mostras de que entende do riscado. Do arriscado. Você conhece os golpes. Boxeur. Esgrimista. Jazzeur. Você vai direto ao ponto. Do oponente você conhece os pontos fracos. Você é um atleta da escrita. Só não esqueça dos seus pontos fracos. É aqui que eu lhe pego. Já lhe disse alguns. Mas não todos. Desta vez você venceu. Mas ainda vou lhe fazer beijar as cordas. So long, bad boy.

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Leia o Políptico de Tomaz Tadeu na íntegra.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Onde há presença da potência o poder não cola, palestra de Luiz Fuganti

Essa expressão me emociona... Antes de tudo, boa noite a todos. É uma alegria imensa, é uma honra estar aqui e ser chamado pra ocupar um lugar, um tempo... Espero que esse tempo seja proveitoso para vocês e que... A gente sente que tem a dizer em relação aos problemas mais essenciais que atravessam as nossas vidas. Então, eu dizia que os problemas essenciais que atravessam as nossas vidas muitas vezes não são tocados, a gente apenas apreende os sintomas e os efeitos desses problemas, e a gente de alguma maneira tenta resistir, ou gritar, ou fazer com que algo em nós (algum tipo de voz, algum tipo de força) se manifeste. Mas, enquanto a gente não apreender mais do que os sintomas ou do que os efeitos; enquanto a gente não sair simplesmente de uma resistência; enquanto a gente ainda focar o outro ou uma referência (seja do ponto de vista do mal, seja do ponto de vista do bem... “evitar ou combater o mal”, “seguir e fazer o bem”), eu penso que a gente não está fazendo nada efetivamente. Estamos fazendo muito pouco, ou quase nada.

Me incomoda um pouco mais a palavra “resistência” do que talvez o conceito de resistência. Porque eu acho que mais que resistir, ou talvez, a melhor forma de resistir seja criar; a melhor forma de ocupar o espaço e o lugar é inventar lugar, esquecer os espaços dados. É inventar o próprio tempo, e não “ter tempo pra gastar”. Então, eu acho que não existe saída – mais até do que liberdade –, não existe saída senão a partir do crescimento de nós mesmos. Eu acho que antes de tudo a gente tem que começar a aprender a abrir as portas pr’as forças que nos atravessam, mais do que querer ocupar um papel ou uma função que talvez nos tenha sido designada (esses papéis, essas funções...) por forças que nós já esquecemos e são forças de poder.

Eu não acho que é uma boa saída, uma boa solução a gente ocupar o poder, ocupar lugares de poder. Eu acho que nossa questão é desconstruir o poder. O poder – se ele é masculino, se ele é feminino, se ele é negro, se ele é branco, se ele é índio... – só acontece a partir da impotência. Não há poder que não se alimente da impotência, que não precise das paixões tristes pra viver. Todo poder, ele está fundado na impotência. Então, isso pode até gerar algum tipo de confusão porque vocês podem pensar: “bom, mas então o que sobra? Se não tem o poder, se os que ocuparam o poder, os que ocupam o poder, os que têm poder, os que exercem poder simplesmente... devem ser varridos, devem ser eliminados e não ter mais poder de forma alguma?”. É exatamente o contrário: o que sobra é o que há de pleno na vida.

O poder é que deixa a vida imperfeita, que deixa a vida triste, que deixa a vida tediosa, que faz nos sentir ridículos, impotentes, tristes, entediados, depressivos e todas as desqualificações que a gente possa aqui enumerar. É o poder que na verdade obstrui os poros, as passagens dos afetos, das forças, dos tempos próprios que nos atravessam e que nós não sabemos mais tocar, nós não temos mais a sensibilidade pra essas forças, não temos mais a visão do tempo ou do imperceptível pro tempo próprio que nos atravessa, pro ritmo do nosso coração (não simplesmente como uma metáfora do coração, mas de fato um ritmo)... Não há ser neste universo que não tenha ritmo próprio, que não tenha vibração própria, que não crie tempo, que não crie espaço, que não crie corpo, a não ser quando ele perdeu a capacidade de reencontrar a fonte que o alimenta. E na medida em que a gente perde a capacidade de reencontrar a fonte que nos sustenta – que nos faz respirar, que nos faz ouvir, que nos faz falar, que nos faz pensar, que nos faz escrever, que nos faz andar, que nos faz ler, que nos faz acontecer... –, na medida em que a gente perde a relação com essa fonte, a gente pensa que o acontecimento é o lugar de uma banalização, de uma vulgarização, de uma desqualificação da vida. A vida não está mais no acontecimento. E a gente desinveste o acontecimento em prol de uma referência.

Transcrição da palestra proferida durante o 1º CULPSI - Cultura & Psicologia, evento realizado pelos estudantes de Psicologia da Faculdade de Tecnologia e Ciências (campus de Vitória da Conquista, Bahia), entre os dias 02 e 04 de Maio de 2007.


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